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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Rivotril

"Existem dores que não são amenizadas.
Não existe Rivotril que consiga curar um coração que sofre.
Mas no instante resolve.
Se chapa. Se monga. Adormece.
Mas acorda, e volta. E não resolve.
E vem a dor. E vem a lágrima. E vem o sofrimento.
E nada muda. E nada gira. E nada.
Aumenta a dose do Rivotril.
Se não adiantar, troca.
Diazepan, Lexotan. Quanta é a variedade.
É só escolher. Um ajuda. Um soluciona.
Não. Não soluciona. mas ajuda.
É triste? É. É desesperador? Também.
Mas passa. Uma hora passa.
Muda, segue, supera, passa, gira.
E tenta. Segue tentando.
Um dia você consegue.
Ser feliz, oras. Ser normal.
Enquanto isso, se chapa, se monga. Adormece.
E sonha."


Hemorragia

"Quero um verso sangrento
que circule de acordo com a batida
deste meu coração arritimado.
Verso que corre nas veias
Incontrolável, indubitável.
Eu sei o sangue que me circunda,
O sangue metafórico das lágrimas
E das guerras da vida banalizada.
Sei nadar neste mar vermelho
Sem bençãos, sem ilusões.
Saboreio o ferro que carrega
O sustento do mundo,organismo trépido.
Saboreio os núcleos ausentes
Que permitem mais cargas e menos vida.
Saboreio globos, globulos, radicais
Presos, livres, brancos, pretos
Da corrente heterogênea da humanidade.
Canto as feridas não cicatrizadas
Abertas, apodrecendo ao léu
Colonizadas por bactérias e ignorâncias.
Sai o pus, sai mais sangue e mais e mais
Retiro as cascas, cravo minhas unhas
Aprofundo os buracos da dor,
Das incoerências.
O mundo é sangue,
Os caminhos irrigam, divergem
Aferem, eferem, pressionam.
Os caminhos dilatam, entopem,
Poluídos pelos nossos excessos
Obstruídos pelas nossas carências.
Mas eu só quero uma hemorragia de versos
Uma hemorragia de vida
De seres humanos e de consciência.
Quero um poema que corra
Transfuso por veias e artérias.
Quero só um poema hematopoetico
que leve pelas artérias da loucura
Cada detalhe de imperfeição
Que traz compasso a este peito,
Percussão de vida imprudente"


Eu Sou poeta do esgoto

"Estou esgotada
De tanto lixo, de tanto resto
Sem manifesto
De compaixão.
Estou norteada
Para o desperdício do ser
O silêncio do verso
E a dor mais injusta.
Estou esgotada
Vou pela correnteza
Sem sanidade ou saneamento.
Estou esgotada
E deito-me nos restos
De alimento e de suporte
Que boiam na sarjeta do senti
Eu vejo um boeiro
Não vejo luz no fim do túnel
Talvez um incinerador.
Irmão, irmão rato que bóia.
Ó mãe lata destes reinos
(O poeta viu a "concha vazia do amor"
Mas eu vi a lata vazia da sanidade.)
Tudo é fétido aqui,
Venha me visitar.
Estou vendo mil maravilhas
Que tua ambição e burrice
Jogaram fora e ao léu.
Simplesmente estou esgotada
Desta ambição e desta burrice também.
Veja: dejetos do que é humano.
Estou esgotada de tanto suportar
A íntegra desgraça da humanidade.
Eu vou fazer frases bonitas
Da tua mais mórbida feiura.
Eu vou te ensinar a ver a luz
Na ausência do que te constrói.
Estou no esgoto dos sentimentos
E dos desejos mais surreais.
Passam por mim ilusões e sorrisos,
Lágrimas, sangue, vômito,
A bile dos poetas românticos
O concreto dos poetas modernos.
Estou esgotada e nado no esgoto
Para com o excesso fazer-me paz.
Fazer-me sentido. Fazer-me sentir.
Venha ver o aperto no peito
A lata e a insanidade.
Sou poeta do mundo e da dor
A cantar a desgraça com brilho no olhar.
Sou poeta de nossos restos de sinceridade
E faço versos para alívio e compreensão.
Eu sou poeta do esgoto e estou esgotada
Porque é do dejeto que nasce o poema."


Beijando Judas

"Venho com estas costas arranhadas
De carregar mil expectativas e mil julgamentos.
Coroada com meu próprio ego
Arrasto a cruz das injustiças
Enquanto meus olhos brilham de pureza.
Fui negada inúmeras vezes
Por covardes que mentem para si mesmos
Suas formas perfeitamente encaixadas
A esta desordem que é ser ordenado.
Sou apedrejada por ignorâncias
Que depois se renderão às minhas falácias.
Gosto de ser este estrago
Da minha própria figura, de meu penar.
Podes dizer que sou pretensiosa
Que tenho blasfemado contra teus medos,
Mas, irmão, eu tenho aqui dois mil poemas
20 anos de idade, 11 de versificação,
Mil subestimações vindas de inferiores
E ilusões nas minhas mãos pouco milagrosas.
Também sou filha da natureza
E posso até ser uma filha da puta
Adotada pela minha linda mãe.
Prego minhas idéias apregoadas
Nestas cruzes de insipiência e apatia
Na qual teus olhares vazios me condenaram.
E ao meu lado Barrabas é meu ego
Também condenado mas que não se cala
E se traduz em mais um poema ridículo.
Eu, meu pensar, estou aqui nua e sangrenta
Sofrendo por traduzir experiências
Em idéias próprias e independentes,
Exclamando um silêncio petrificante
Por ser sincera e ser firme em mim.
Entre aqueles que assaltaram coerências
Definho no vazio destes versos.
Eu só quero elevar-me a algum paraíso
Jogar-me aos teus pensares, quem sabe.
Venho à verdade que julgo existir.
Julgo-me poeta por um mínimo instante
Mas se eu me deixasse morrer por teu horror
Sei que não ressuscitaria ao terceiro verso.
Portanto, fico aqui drástica e doentia,
A beijar cada Judas
Com lábios irônicos de perdão
Pois é com teu asco e teu dejeto de pensamento
Que construo meu caminho de palavras." 


domingo, 27 de março de 2011

Oração Do Bipolar

Senhor,
Eu pedi equilíbrio
E me destes carbolitium
Eu pedi ânimo
E me enviastes fluoxetina
Eu pedi paciência
E recebi um anti-psicótico
Eu pedi calma
E me viciei em rivotril!
Eu pedi alguém para me ouvir
E encontrei um psiquiatra
(por 50 minutos semanais)
Eu pedi para nunca estar só
Realmente, esses efeitos colaterais
Estão sempre comigo...
Eu pedi uma motivação
Para seguir adiante
E recebi a imensa conta para pagar
Todas as "dádivas" acima...
Mestre,
Como é bom ter tão pouco a pedir
E tanto a enlouquecer...
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