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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O lugar onde você costumava existir

 



Eu sinto sua falta.

Escrevo isso assim, sem enfeites, porque existem dores que não precisam de metáforas para serem imensas. Mas talvez precisem delas para serem suportáveis. Dizer que sinto sua falta parece tão pequeno diante do tamanho da sua ausência. É como tentar guardar um oceano dentro de um copo e fingir que não vai transbordar.

Esses dias, sonhei com você.

No sonho, eu tinha ido te ver de surpresa. Eu, com essa minha mania ridícula de preparar acontecimentos, de arquitetar encontros, de tentar arrancar da vida alguma coisa que se pareça com um milagre. Você nunca gostou muito dessas minhas surpresas. Eu sei. Talvez eu insistisse porque sempre acreditei que algumas alegrias mereciam ser provocadas, que algumas pessoas precisavam ser lembradas de que o mundo ainda era capaz de lhes entregar alguma coisa bonita sem aviso prévio.

Eu fui te ver.

E você estava lá.

Por um instante, tudo em mim descansou. Meu coração, que há tanto tempo parecia viver em estado de espera, finalmente reconheceu alguma coisa. Você sorriu para mim. Acenou. E virou as costas.

Foi só isso.

Nenhum grito, nenhuma discussão, nenhuma palavra cruel que eu pudesse guardar para transformar em raiva depois. Você apenas sorriu, acenou e foi embora, como quem se despede de alguém que encontrou por acaso na rua. Como se eu fosse uma pessoa qualquer. Como se não houvesse uma história inteira entre nós. Como se eu não tivesse passado tanto tempo aprendendo a existir ao seu lado para, agora, precisar aprender a existir sem você.

E eu senti uma dor que não sei explicar. Não sei se existe nome para a sensação de encontrar alguém que se ama e descobrir, mesmo dentro de um sonho, que já não existe lugar para você na vida dessa pessoa. Era como se alguma coisa tivesse sido arrancada de mim sem anestesia. Como se meu corpo tivesse entendido antes de mim que eu havia perdido você de um jeito que nenhuma vontade, nenhuma saudade e nenhuma insistência seriam capazes de consertar.

Acordei, mas a dor não acordou comigo. Ela já estava desperta.

Ficou ali, atravessada no peito, contaminando as horas, alterando a cor das coisas. Tentei continuar o dia, fiz o que precisava fazer, conversei com pessoas, respondi ao mundo quando o mundo me chamou. Por fora, nada havia acontecido. Por dentro, eu ainda estava naquele lugar, vendo você sorrir, acenar e me deixar para trás.

Passei o dia procurando você.

Não de uma maneira consciente, não como quem pega o telefone e decide procurar um nome. Procurei você nos intervalos, nos pequenos acidentes do cotidiano, nos lugares onde minha memória ainda se recusa a aceitar que você não está. Procurei na vontade de contar alguma coisa, no impulso de compartilhar uma bobagem, naquela fração de segundo em que acontece algo engraçado e a gente pensa em quem gostaria de contar antes mesmo de terminar de rir.

Procurei você em todos os lugares e você não estava em nenhum.

E foi então que entendi uma coisa terrível sobre a ausência: ela não consiste apenas em alguém não estar. A ausência é quando alguém continua existindo em todos os seus gestos, mas já não existe do outro lado deles. É quando você ainda tem tanto para dizer e não sabe mais para quem. Quando uma notícia boa chega e, antes de comemorar, você sente o vazio de não poder dividi-la com quem costumava ser testemunha da sua vida. Quando acontece alguma coisa ruim e você percebe que perdeu também o direito de procurar o colo que conhecia.

A ausência é um hábito que sobrevive ao fim de uma história.

É acordar e não contar como foi a noite. É atravessar um dia inteiro sem narrar as pequenas tragédias e as pequenas vitórias que, antes, pareciam importantes justamente porque alguém se importava em ouvi-las. É encontrar uma música, lembrar de uma frase, ver alguma coisa na rua e sentir aquela vontade automática de dizer olha isso, para depois precisar recolher a frase de volta, como quem recolhe os cacos de um copo quebrado com as próprias mãos.

É descobrir que existem coisas que só acontecem uma vez, mesmo quando continuam acontecendo todos os dias.

Eu nunca soube viver pela metade. Sempre tive essa urgência de viver mil vidas dentro de um único dia, de conhecer lugares, ouvir histórias, colecionar experiências, transformar qualquer terça-feira insignificante em alguma coisa que valesse a pena lembrar. Tenho essa fome de mundo, essa pressa de sentir, essa impressão constante de que a vida está acontecendo depressa demais e eu preciso correr para não perder nada.

Você era diferente.

Você gostava da calma, da segurança de um lar, da tranquilidade das coisas que permanecem no mesmo lugar. Enquanto eu queria abrir todas as portas, você parecia preferir a paz de saber que uma delas continuaria aberta para mim.

Éramos opostos em tantas coisas. Talvez até nas maneiras de amar, nas formas de demonstrar, nas expectativas que depositávamos um no outro. Eu queria viver tudo, e você parecia querer apenas que algumas coisas não mudassem nunca.

Mas havia uma contradição bonita entre nós: eu queria conhecer o mundo inteiro, e você era o lugar para onde eu queria voltar.

Você era meu lar.

Ou costumava ser.

E eu não sei em que momento uma pessoa deixa de ser casa. Não sei quando o abraço que parecia abrigo se transforma em lembrança, quando a voz que organizava o caos dentro da gente se torna apenas um som que a memória reproduz sem autorização. Não sei como alguém consegue continuar sendo o lugar mais familiar do mundo mesmo depois de se tornar um lugar ao qual já não podemos voltar.

Só sei que, no dia em que você foi embora, alguma coisa em mim também perdeu o caminho de casa.

Desde então, sinto sua ausência todos os dias. Houve dias em que ela foi discreta, quase educada. Ficou quieta num canto, deixou que eu trabalhasse, risse, saísse, encontrasse pessoas e fingisse que estava tudo bem. Em outros, ocupou tudo. Sentou-se à mesa comigo, deitou na minha cama, acompanhou meus passos e me lembrou, a cada instante, que sobreviver à partida de alguém não significa aprender a viver sem essa pessoa.

Durante muito tempo, tentei me convencer de que era melhor assim.

Repeti para mim mesma que algumas despedidas são necessárias, que nem todo amor consegue permanecer, que às vezes deixar alguém ir é a única forma de não transformar o que foi bonito em alguma coisa irreconhecível. Tentei encontrar dignidade na aceitação, maturidade na distância, algum sentido naquilo que não consegui impedir.

E talvez fosse mesmo o melhor.

Mas existe uma diferença enorme entre compreender que alguma coisa precisava terminar e conseguir suportar o fato de que terminou.

A razão pode construir argumentos muito convincentes. Pode enumerar os motivos, organizar os acontecimentos, explicar por que insistir não adiantaria. Pode até nos convencer de que tomamos a decisão certa. Mas a razão não está presente quando alguma coisa acontece e a primeira pessoa em quem pensamos é aquela que já não está. Não é a razão que sente falta de uma voz, de um jeito particular de rir, de uma presença silenciosa no mesmo ambiente. Não é a razão que, no meio de uma tarde comum, percebe que daria qualquer coisa para contar uma história absolutamente inútil a alguém que provavelmente nem acharia graça.

A razão entende o fim.

O corpo, às vezes, continua esperando.

E eu acho que uma parte de mim ainda espera você em coisas que nem percebo. Na maneira como guardo certas notícias. Na vontade de mostrar alguma coisa que vi. Na expectativa involuntária que nasce e morre em segundos. No espaço que deixo dentro das histórias que conto, como se você ainda pudesse aparecer a qualquer momento e perguntar como foi meu dia.

Faz tempo que não conto meu dia para você.

E parece uma coisa tão pequena, tão banal, tão estúpida de se lamentar diante de tudo o que significa perder alguém. Mas eu sinto falta disso. Sinto falta da intimidade de não precisar transformar a vida em um grande acontecimento para ter algo a compartilhar. Sinto falta de poder dizer que o dia foi cansativo, que comi alguma coisa gostosa, que ouvi uma música que me lembrou você, que alguém disse uma frase absurda, que vi um cachorro na rua, que não aconteceu absolutamente nada.

Principalmente disso: não acontecer nada e, ainda assim, ter você.

Porque o amor também morava nessas coisas que não mereciam ser lembradas. Não apenas nos encontros, nas declarações, nas grandes promessas ou nos momentos que a gente teria vontade de fotografar. Ele morava no banal, no repetido, no desimportante. Na certeza de que, ao fim do dia, existiria alguém para quem a minha existência cotidiana não seria uma informação irrelevante.

Eu não queria apenas os dias extraordinários com você. Queria os dias comuns. Os dias em que nada acontecia, em que não havia surpresas, planos ou grandes motivos para sorrir. Queria a liberdade de existir ao seu lado sem precisar tornar minha existência interessante.

Queria o direito de ser apenas eu, vivendo mais um dia, sabendo que em algum lugar você também estava vivendo o seu.

Talvez seja isso que mais doa: não perder apenas alguém, mas perder a versão da vida em que essa pessoa ainda cabia.

Porque a vida continua. Essa é a crueldade mais banal de todas. O relógio não se comove, as ruas não ficam vazias, as pessoas não interrompem suas conversas para respeitar o que acabou dentro de você. O sol nasce, as contas vencem, o telefone toca, o trabalho espera. Você precisa escolher o que vestir, lembrar de comprar alguma coisa, responder mensagens, tomar decisões. Precisa continuar sendo uma pessoa funcional enquanto carrega dentro do peito uma história que já não tem onde acontecer.

E ninguém percebe a quantidade de vezes que você precisa escolher continuar.

Ninguém vê as pequenas renúncias. A mensagem que você não envia. A lembrança que tenta afastar. A pergunta que engole. A vontade que transforma em silêncio. Ninguém vê quando você deixa de fazer alguma coisa porque sabe que não poderá compartilhar com quem gostaria, ou quando se obriga a não olhar para trás porque tem medo de descobrir que ainda está esperando.

Eu fiz tudo isso. Todos os dias, de um jeito ou de outro, tentei aprender a viver com a sua ausência. Tentei fazer da saudade uma coisa administrável, uma presença que eu pudesse carregar sem deixar que ela me impedisse de caminhar. Tentei acreditar que o tempo faria o que eu não conseguia fazer sozinha.

Mas o tempo tem uma péssima reputação de curandeiro. Às vezes, ele apenas nos ensina a esconder melhor o que continua doendo.

E, quando pensei que estava aprendendo, sonhei com você.

Você sorriu, acenou e me deu as costas.

Acordei com o coração de quem havia perdido você mais uma vez. Como se todas as despedidas anteriores não tivessem sido suficientes. Como se a memória precisasse me colocar diante de uma última crueldade, uma que nem sequer aconteceu, para me lembrar de que a saudade é capaz de inventar cenários e, ainda assim, encontrar maneiras absolutamente reais de nos ferir.

Passei o dia procurando você porque, por algumas horas, não consegui me convencer de que você realmente não estava em lugar nenhum.

E talvez eu nunca consiga me convencer por completo.

Porque ainda existe em mim essa parte absurda, incurável, que acredita que as coisas podem mudar no último instante. Que uma pessoa pode voltar. Que o telefone pode tocar. Que uma porta pode se abrir. Que o mundo, depois de tanta indiferença, pode resolver ser gentil justamente quando já não esperamos mais nada.

Eu não sei viver sem cultivar a esperança de milagres.

Talvez seja o meu jeito de continuar. Talvez seja também a minha maneira mais dolorosa de permanecer presa ao que já passou. Há uma espécie de ingenuidade em mim que insiste em acreditar que nem tudo está decidido, que algumas histórias ainda guardam uma página escondida, que o impossível pode se cansar de ser impossível.

Eu alimento essa esperança mesmo quando sei que não deveria. Dou a ela pequenos espaços, invento possibilidades, imagino reencontros que não confesso a ninguém. Não porque não compreenda a realidade, mas porque compreendê-la não me impede de desejar que ela fosse outra.

E, no fundo, acho que passei tempo demais tentando ser razoável com a minha própria dor.

Como se amar alguém que foi embora exigisse também a obrigação de deixar de sentir. Como se aceitar o fim significasse nunca mais desejar um retorno. Como se eu precisasse provar que superei você, quando a verdade é que existem dias em que tudo o que consigo fazer é atravessar as horas sem deixar que a saudade decida por mim.

Eu esperei tanto que você aparecesse no meu aniversário.

Não precisava ser grandioso. Não precisava de explicações, de discursos, de promessas sobre o futuro. Acho que, em algum lugar secreto de mim, bastava que você estivesse ali. Que, por um instante, o mundo voltasse a fazer sentido daquela maneira antiga. Que eu pudesse olhar para você e sentir que algumas coisas, apesar de tudo, ainda eram possíveis.

Esperei porque não sei viver sem cultivar a esperança de milagres.

E, mais uma vez, eu me decepcionei.

O dia passou. As horas passaram. As pessoas chegaram, os sorrisos aconteceram, a vida se fez presente de tantas maneiras, e eu tentei estar ali por inteiro, porque havia coisas bonitas acontecendo e eu merecia vivê-las. Mas existia também um lugar dentro de mim que continuava atento à possibilidade de você aparecer. Uma parte silenciosa que olhava para cada movimento, que talvez tenha escutado passos imaginários, que guardou até o último instante a esperança de que o impossível resolvesse me encontrar.

Você não veio.

E eu precisei continuar mesmo assim.

Precisei sorrir, agradecer, abraçar as pessoas, viver o meu aniversário sem transformar a sua ausência na protagonista de tudo o que aconteceu. Precisei aceitar que uma data importante para mim talvez não significasse absolutamente nada para você. Que aquilo que eu havia esperado em silêncio não era uma promessa que você tivesse feito, mas uma expectativa que eu, sozinha, mantive viva.

Essa é uma das partes mais difíceis de sentir falta de alguém: perceber que podemos continuar vivendo uma história dentro de nós muito depois de ela ter deixado de existir para a outra pessoa.

Não sei se você pensa em mim. Não sei se alguma coisa cotidiana ainda faz você se lembrar de nós, se alguma música interrompe seus pensamentos, se você já teve vontade de me contar alguma coisa e desistiu antes mesmo de procurar meu nome. Não sei se, em algum momento, a minha ausência atravessou o seu dia com a mesma violência com que a sua atravessa o meu.

E talvez eu nunca saiba.

Mas sei que senti sua falta no meu aniversário. Senti sua falta no dia em que sonhei com você. Senti sua falta nos dias em que nada aconteceu e nos dias em que tanta coisa aconteceu que eu gostaria de ter contado a você. Senti sua falta nas pequenas coisas, nas grandes coisas, nas coisas que nem chegaram a acontecer porque, de alguma maneira, eu ainda as imaginava com você.

Sinto sua falta até quando não estou pensando em você, porque a ausência não precisa de lembranças para existir. Ela já aprendeu os meus caminhos. Conhece a rotina, os horários, os lugares em que costumo baixar a guarda. Sabe quando me encontrar.

E todos os dias, de uma forma ou de outra, ela me encontra.

Eu queria dizer que estou bem. Que aprendi. Que compreendi tudo o que precisava compreender e finalmente consegui deixar você no lugar ao qual pertence: o passado. Queria poder escrever sobre nós com a tranquilidade de quem olha para uma fotografia antiga e sente apenas ternura pelo que viveu.

Mas ainda não consigo.

Há dias em que a saudade é uma fotografia. Em outros, é uma ferida aberta. E há dias, como aquele em que sonhei com você, em que ela parece uma espécie de condenação: a experiência de perder alguém que não está mais ali para ser perdido, e descobrir que o coração não reconhece a diferença.

Eu sinto tanto a sua falta.

Não apenas de quem você foi, mas de quem eu era quando ainda acreditava que você ficaria. Sinto falta da mulher que podia imaginar o futuro sem precisar calcular a possibilidade de uma ausência. Da tranquilidade de não precisar me despedir de você todas as manhãs, porque você ainda fazia parte do meu mundo. Sinto falta de quando a palavra casa não me fazia pensar em alguma coisa que eu já não podia alcançar.

E, se existe alguma coisa que aprendi com tudo isso, é que certas ausências não se encerram quando alguém vai embora. Elas continuam acontecendo. Uma vez na despedida, outra vez no primeiro dia sem a pessoa, outra vez quando você percebe que não sabe mais como contar uma notícia, outra vez quando chega uma data importante, outra vez quando sonha com um reencontro e acorda sozinha.

A ausência acontece de novo e de novo, até nos dias em que juramos que já não dói tanto.

Eu não sei quando vou deixar de procurar você nos lugares onde não está. Não sei quando vou parar de imaginar o que diria se estivesse aqui, ou quando vou conseguir atravessar uma data importante sem reservar, em algum canto de mim, um espaço para a sua chegada.

Só sei que hoje ainda procuro.

Ainda espero, mesmo quando tenho vergonha de esperar. Ainda sinto, mesmo quando gostaria de não sentir. Ainda carrego comigo a contradição de compreender que você foi embora e, ao mesmo tempo, desejar que alguma coisa no universo desfaça o caminho que levou você para longe de mim.

Talvez eu nunca tenha sido muito boa em desistir de milagres.

Mas estou cansada de descobrir que a esperança também pode machucar. Cansada de alimentar possibilidades que só existem do meu lado. Cansada de sentir o peso de uma história que, por mais que eu tente, não consigo carregar sozinha sem me ferir.

E, ainda assim, se me perguntassem o que eu queria ter recebido de presente naquele aniversário, eu não saberia responder sem pensar em você.

Porque algumas pessoas deixam de fazer parte da nossa vida antes de deixarem de fazer parte dos nossos desejos.

E você ainda está nos meus.

É isso que me custa admitir. Não que você tenha ido embora, porque essa parte eu já precisei aceitar tantas vezes. Mas que, mesmo depois de tudo, mesmo depois das ausências, das tentativas de seguir, dos dias em que me convenci de que era melhor assim, ainda existe em mim uma parte que se voltaria inteira para você se, por acaso, você aparecesse à minha porta.

Uma parte que talvez sorrisse antes de chorar.

Uma parte que ainda reconheceria você como casa.

E eu não sei o que fazer com ela.

Não sei como explicar a essa parte de mim que algumas portas não vão se abrir novamente. Não sei como fazê-la entender que sentir falta não é um sinal de que devemos voltar, que amar não garante permanência, que nem toda espera termina em reencontro.

Só sei que, às vezes, fecho os olhos e ainda consigo imaginar como seria contar o meu dia para você.

Então abro os olhos.

E você não está.

Eu sinto tanto sua falta.

E todos os dias isso sangra em mim.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

A mulher que comparecia ao próprio velório

 




Durante onze anos, fui ao meu velório todas as quintas-feiras. Não havia flores, caixão ou parentes chorosos. Apenas eu, sentada no último banco da igreja, observando as pessoas que compareciam para lamentar a mulher que eu poderia ter sido.

A primeira a chegar era sempre minha mãe, com o rosto cansado de quem envelhecera esperando alguma coisa. Depois vinha meu pai, que nunca dizia nada, nem mesmo quando eu era criança e lhe mostrava os desenhos que fazia para merecer sua atenção. Por último, chegava um homem cujo rosto eu conhecia, embora não conseguisse recordar de onde. Ele depositava uma rosa sobre o altar e chorava como se tivesse me amado.

Eu não os culpava. Afinal, os mortos são criaturas convenientes. Não exigem explicações, não decepcionam, não precisam ser compreendidos. Uma pessoa viva é um compromisso; uma pessoa morta, uma lembrança que cada um decora conforme a própria necessidade.

Naquela quinta-feira, porém, havia alguém sentado no meu lugar.

Era uma menina de aproximadamente oito anos, com os joelhos ralados e os cabelos presos de qualquer maneira. Reconheci imediatamente o vestido amarelo, os sapatos apertados e a expressão de quem acabara de descobrir que o mundo não era obrigado a ser gentil.

Sentei-me ao lado dela.

— Você também morreu? — perguntei.

A menina balançou a cabeça.

— Ainda não.

Havia tanta tristeza naquela resposta que senti vergonha de todas as vezes em que desejei desaparecer sem considerar o que deixaria para trás.

— Então por que está aqui?

Ela me olhou com a impaciência característica das crianças diante das perguntas dos adultos.

— Vim buscar você.

Quis rir. Quis dizer que não havia ninguém para buscar, que eu já era grande demais para acreditar em fantasmas e pequena demais para saber viver. Mas a menina segurou minha mão, e percebi que seus dedos eram os mesmos que, muitos anos antes, haviam apertado os meus durante a primeira noite em que pensei que não conseguiria suportar a própria existência.

Naquele instante, a igreja ficou vazia. Minha mãe, meu pai, o homem da rosa: todos desapareceram. Restamos apenas nós duas e o silêncio de tudo o que eu não havia dito a mim mesma.

— Vamos embora — ela pediu.

Levantei-me.

Na saída, olhei uma última vez para o altar. Pela primeira vez em onze anos, não havia ninguém sendo velado.

Havia apenas uma mulher deixando de comparecer à própria ausência.

E, pela primeira vez, isso me pareceu suficiente.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O bolo está marcado. A morte também.



Eu estou planejando meu aniversário. Estou escolhendo o bolo, pensando na comida, calculando quantas pessoas vão caber, escolhendo a música, imaginando quem vai chegar primeiro e quem provavelmente vai atrasar. Estou pensando no vestido, fazendo listas, organizando detalhes, respondendo mensagens, dando risada, publicando coisas e dizendo que estou animada.

E talvez ninguém imagine que, em algum lugar dentro de mim, existe também outro planejamento. Um que ninguém vê. Porque enquanto eu penso no dia 8, também existe uma parte de mim perguntando se eu realmente vou chegar até lá.

Essa é uma das coisas mais cruéis sobre a dor que não aparece. Ela não necessariamente transforma a gente em alguém triste o tempo inteiro. Às vezes, ela deixa a gente funcionando perfeitamente. A gente trabalha, paga contas, responde “estou bem”, faz planos para dezembro, compra uma roupa nova, marca compromissos, comenta uma publicação, ri de uma piada, abraça alguém, compra o próprio bolo. E depois, quando ninguém está olhando, pensa: “Eu não sei se quero continuar”.

É possível estar rodeado de pessoas e se sentir completamente sozinho. É possível amar a própria família e, ainda assim, sentir uma vontade desesperada de desaparecer. É possível querer viver e, ao mesmo tempo, estar cansado demais para continuar tentando. É possível planejar o futuro enquanto uma parte de você acredita que não deveria existir nele.

E talvez seja justamente isso que torne tudo tão difícil de perceber. Nem sempre quem sofre está chorando. Às vezes, está fazendo piada. Às vezes, está trabalhando. Às vezes, está planejando uma festa. Às vezes, está dizendo “depois a gente conversa”. Às vezes, está escolhendo a música que vai tocar no próprio aniversário sem saber se terá forças para chegar até ele.

Por isso, neste Setembro Amarelo, eu não quero falar apenas sobre as pessoas que demonstram que estão mal. Quero falar sobre aquelas que aprenderam a esconder. Sobre quem sorri porque não quer preocupar ninguém. Sobre quem diz “está tudo bem” porque não sabe explicar que não está. Sobre quem continua vivendo não porque a dor acabou, mas porque ainda existe alguma coisa, por menor que seja, segurando essa pessoa aqui.

Pode ser um gato. Uma música. Um amigo. Uma história que ainda não terminou. Um livro que ainda não foi lido. Uma viagem que ainda não aconteceu. Uma festa. Um aniversário. Qualquer coisa.

Às vezes, a esperança não chega como uma grande revelação. Às vezes, ela é só uma pequena coisa que diz: “Aguenta mais um pouco”.

E talvez seja por isso que precisamos perguntar mais. Não apenas “você está bem?”, mas “como você está de verdade?”. Precisamos aprender a permanecer quando a resposta for diferente daquela que esperávamos. Algumas pessoas não precisam de alguém que resolva a vida delas. Precisam de alguém que fique. Que escute. Que não minimize. Que não diga “você tem tudo para ser feliz”. Que não transforme sofrimento em ingratidão. Que não tenha medo de ouvir.

Porque ninguém deveria precisar parecer destruído para merecer cuidado.

E se você está planejando o próximo mês enquanto, secretamente, não sabe se quer estar aqui para vivê-lo, eu espero que você fique. Não precisa resolver a vida inteira hoje. Fique até amanhã. Depois, fique mais um pouco. Conte para alguém. Peça ajuda. Deixe alguém carregar um pedaço desse peso com você.

Porque talvez o futuro que hoje parece impossível ainda tenha coisas que você sequer imagina. Talvez exista uma música que você ainda vai amar, um lugar onde ainda vai querer estar, uma pessoa que ainda vai conhecer, uma gargalhada que ainda não aconteceu, um aniversário que ainda não chegou.

E talvez, um dia, você olhe para tudo isso e perceba: eu quase não cheguei aqui. Mas cheguei.

E isso importa.

Neste Setembro Amarelo, talvez a gente precise parar de procurar apenas quem está chorando e aprender a enxergar também quem está sorrindo enquanto tenta sobreviver. Pergunte. Fique. Escute. Não espere uma prova de sofrimento para oferecer cuidado.

Porque, às vezes, salvar alguém começa simplesmente quando ela percebe que não precisa esconder a própria dor.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Alguns amores mudam de lugar

 




Talvez uma das formas mais bonitas de amar alguém seja aprender a permanecer, mesmo quando não se pode ficar.

Existem pessoas que entram na nossa vida e, sem perceber, tornam-se parte dos lugares que a gente nem sabia que existiam dentro de nós. Elas ocupam espaços nas músicas, nos pensamentos antes de dormir, nas lembranças que surgem sem aviso e até naquele silêncio estranho que aparece quando percebemos que gostaríamos de contar alguma coisa para elas.

E então, um dia, a distância acontece.

Às vezes ela vem em quilômetros.
Às vezes em escolhas.
Às vezes em um silêncio que ninguém sabe explicar.

E é estranho como alguém pode estar tão longe e, ainda assim, tão perto.

Porque a ausência não apaga imediatamente aquilo que a presença construiu. O carinho continua existindo. A saudade continua encontrando caminhos. E algumas memórias parecem ter decidido morar na gente, mesmo depois que as pessoas partiram.

Talvez seja por isso que Never Be Alone doa tanto.

Porque não fala apenas sobre estar ao lado de alguém. Fala sobre a promessa de não deixar que essa pessoa se sinta abandonada, mesmo quando você não puder segurá-la pela mão.

E existe uma diferença enorme entre não estar sozinho e ter alguém por perto.

Às vezes, estamos cercados de pessoas e ainda assim sentimos um vazio impossível de explicar. Outras vezes, estamos completamente sozinhos em um quarto, mas uma lembrança é suficiente para fazer companhia.

Talvez amar seja também isso: deixar uma parte de si para que o outro possa encontrá-la quando precisar.

É dizer:

Quando o mundo parecer grande demais, lembre-se de que um dia alguém te amou.
Quando a noite parecer longa demais, lembre-se de que você já foi o lugar seguro de alguém.
Quando sentir que ninguém percebe a sua ausência, saiba que existem pessoas que ainda reconhecem o espaço que você deixou.

Nem todo amor consegue permanecer da maneira que gostaríamos.

Alguns ficam.
Alguns partem.
Alguns se transformam em amizade.
Alguns viram saudade.
Alguns terminam sem realmente acabar.

E talvez essa seja uma das partes mais amargas de amar: entender que nem sempre podemos salvar uma história apenas porque ainda sentimos alguma coisa.

Há momentos em que tudo o que podemos fazer é guardar o que foi bonito e aceitar que determinadas pessoas não foram feitas para permanecer ao nosso lado para sempre.

Mas isso não significa que tenham sido passageiras.

Porque existem pessoas que ficam pouco tempo e deixam marcas que duram anos.

Existem abraços que terminam, mas continuam aquecendo a memória.

Existem conversas que acabam, mas continuam acontecendo dentro da nossa cabeça.

Existem despedidas que nunca parecem completas porque uma parte da gente continua esperando ouvir, mais uma vez, aquela voz dizendo que vai ficar tudo bem.

Mesmo que a vida mude.

Mesmo que os caminhos se separem.

Mesmo que um dia a gente deixe de saber como o outro está.

Porque desejar que alguém fique bem também é uma forma de amor.

E talvez o amor mais bonito não seja aquele que exige presença constante, respostas imediatas ou promessas eternas.

Talvez seja aquele que consegue olhar para a distância e dizer:

“Eu não posso estar aqui agora. Mas isso não significa que você esteja sozinho.”

Então, se algum dia a saudade apertar, não tenha vergonha dela.

Saudade é a prova de que alguma coisa foi importante.

Se algum dia você se sentir perdido, lembre-se de todas as versões de você que já sobreviveram a dias difíceis.

E se algum dia o silêncio fizer parecer que ninguém se importa, lembre-se de que o silêncio nem sempre significa esquecimento.

Algumas pessoas simplesmente não sabem mais como voltar.

Algumas não podem voltar.

E algumas talvez tenham ido embora justamente porque permanecer teria machucado ainda mais.

Mas isso não diminui o que existiu.

Há amores que não terminam com uma última palavra.

Eles apenas mudam de lugar.

Deixam de morar na rotina e passam a morar na memória.

Deixam de ser presença e tornam-se lembrança.

Deixam de ser “nós” e passam a ser “um dia”.

E, ainda assim, quando uma determinada música toca, quando uma noite fica silenciosa demais ou quando o coração decide revisitar aquilo que a cabeça tentou esquecer...

aquela pessoa está ali novamente.

Por alguns minutos, não existe distância.

Não existe tempo.

Não existe fim.

Existe apenas a lembrança de quando vocês ainda estavam juntos no mesmo lugar do mundo.

E talvez seja suficiente.

Porque algumas pessoas não precisam permanecer fisicamente para nunca serem esquecidas.

Elas permanecem naquilo que ensinaram, naquilo que despertaram, nas versões de nós mesmos que nasceram depois delas.

E talvez seja essa a promessa mais bonita que alguém pode deixar:

“Mesmo que eu não esteja mais aqui, espero que você nunca se sinta sozinho.”

Porque, no fim, talvez ninguém consiga nos acompanhar durante toda a vida.

Mas algumas pessoas conseguem nos ensinar que, mesmo nos momentos em que caminhamos sozinhos, nunca precisamos acreditar que estamos completamente sozinhos.

E talvez amar seja exatamente isso:

partir sem apagar.
distanciar sem abandonar.
lembrar sem possuir.
e continuar desejando luz para alguém, mesmo quando a nossa própria estrada já seguiu por outro caminho.


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Sobre eclipses e aquilo que a gente chama de escuridão

 




Hoje o céu vai nos lembrar de uma coisa que a gente costuma esquecer: a luz não desaparece só porque, por algum instante, deixou de alcançar os nossos olhos. Um eclipse acontece quando dois corpos se encontram no lugar exato, no instante exato, e um deles passa diante daquilo que parecia impossível de esconder. O sol continua lá. A lua continua lá. E, ainda assim, por alguns minutos, tudo parece diferente. Talvez a vida também seja feita desses encontros estranhos entre luz e sombra.

Existem momentos em que alguma coisa passa na frente de nós e encobre aquilo que antes parecia tão claro. Às vezes é uma perda. Às vezes é uma decepção. Às vezes é o cansaço de continuar sendo forte quando ninguém percebe o esforço que isso exige. Às vezes é alguém que vai embora levando consigo uma versão nossa que só existia quando aquela pessoa estava por perto. E existem sombras que nem sabemos nomear. Apenas acordamos um dia e percebemos que alguma coisa dentro da gente escureceu.

O mais difícil é que, quando estamos no meio da sombra, temos a tendência de acreditar que ela é permanente. A gente olha para o céu e pensa que o sol sumiu. Olha para dentro e pensa que aquela parte de nós nunca mais vai voltar. Confundimos ausência de luz com ausência da própria luz.

Mas o eclipse sabe uma coisa que nós demoramos muito para aprender: algumas sombras são apenas travessias.

Nem toda escuridão é um destino. Algumas são apenas o resultado de alguma coisa passando pela nossa frente. E talvez seja por isso que certos períodos da vida pareçam tão desproporcionais ao que realmente são. A dor ocupa tanto espaço que parece impossível imaginar o mundo depois dela. O silêncio fica tão alto que a gente esquece como era ouvir a própria voz. A saudade se torna tão presente que parece mais real do que a pessoa que partiu. E, por algum tempo, tudo o que conseguimos enxergar é aquilo que está bloqueando a luz.

Mas o sol não negocia com a sombra. Ele simplesmente continua existindo.

E talvez haja uma delicadeza nisso. Saber que aquilo que nos ilumina não precisa da nossa percepção para continuar sendo real. Há coisas que permanecem mesmo quando não conseguimos senti-las. Há afetos que continuam existindo sem que precisem voltar. Há versões nossas que não morreram — apenas estão esperando que alguma coisa saia da frente para que possamos reconhecê-las novamente.

Talvez crescer seja também aprender a não ter tanto medo dos eclipses.

Aprender que haverá dias em que seremos inteiros e dias em que nos sentiremos incompletos. Haverá manhãs em que acordaremos cheios de vontade de viver e noites em que a única coisa possível será sobreviver ao próprio pensamento. Haverá pessoas que serão sol em determinadas épocas e sombra em outras. Haverá portas que se fecharão justamente quando tínhamos certeza de que finalmente tínhamos encontrado um lugar para ficar.

E tudo bem.

Nem todo encontro foi feito para durar. Nem toda luz foi feita para permanecer sobre nós para sempre. Algumas pessoas chegam para iluminar um pedaço específico do caminho. Algumas ficam. Algumas partem. Algumas deixam saudade. Algumas deixam cicatrizes. E algumas, mesmo depois de irem embora, continuam existindo em pequenas coisas: numa música, num cheiro, numa rua, numa frase que nunca mais conseguimos ouvir da mesma maneira.

Talvez o erro esteja em pensar que, para seguir em frente, precisamos apagar tudo aquilo que nos machucou.

Talvez não.

Talvez algumas sombras precisem ser lembradas não para que continuemos vivendo dentro delas, mas para que nunca esqueçamos que conseguimos atravessá-las.

Hoje, enquanto o céu muda de cor, talvez seja bonito lembrar que nós também mudamos. Que já fomos pessoas que juraram nunca superar certas dores e, ainda assim, chegamos até aqui. Que já houve noites que pareciam não terminar e, de alguma maneira, a manhã veio. Que já perdemos pessoas, lugares, sonhos e versões de nós mesmos que acreditávamos serem permanentes. E mesmo assim, continuamos.

Continuamos.

Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas sobre estar vivo: a gente nunca sabe exatamente quando a luz vai voltar, mas, de alguma forma, continua olhando para o céu.

Então, se hoje alguma coisa dentro de você estiver escura, não tenha tanta pressa de consertá-la. Não transforme todo silêncio em problema. Não exija de si mesmo a obrigação de estar bem só porque o mundo continua funcionando.

Há sombras que precisam apenas passar.

Fique um pouco.

Respire.

Observe.

Porque, enquanto você pensa que perdeu a luz, talvez ela esteja apenas escondida atrás de alguma coisa que, assim como tudo no universo, também vai seguir seu caminho.

E quando seguir, quando a luz voltar a tocar aquilo que estava escondido, talvez você perceba que não voltou a ser quem era antes.

Talvez tenha se tornado alguém diferente.

Alguém que conhece a escuridão e, justamente por isso, aprendeu a reconhecer a luz.

E talvez seja essa a verdadeira beleza dos eclipses: eles não existem para provar que a luz pode desaparecer.

Existem para nos lembrar de que mesmo quando não conseguimos vê-la, ela continua lá.

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