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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Antes que as flores caiam: uma ode aos ipês-rosas



Há árvores que parecem ter compreendido alguma coisa sobre a existência que nós, humanos, passamos a vida tentando descobrir. Os ipês-rosas são uma delas.

Durante boa parte do ano, permanecem discretos. Seus galhos atravessam as estações sem grandes espetáculos, assistem à pressa dos automóveis, ao movimento das cidades, às conversas interrompidas nas calçadas e às pessoas que passam sem sequer levantar os olhos. Parecem árvores comuns, quase esquecidas pela paisagem. Até que, em algum momento, decidem florescer.

E então acontece.

O mundo, que tantas vezes insiste em ser cinza, ganha uma delicada insolência cor-de-rosa.

Os ipês-rosas não florescem timidamente. Quando chegam, ocupam os galhos quase por inteiro, como se tivessem guardado durante meses tudo aquilo que precisavam dizer. Suas flores surgem em abundância, frequentemente antes mesmo das novas folhas, transformando a árvore numa espécie de nuvem suspensa entre o céu e a terra. É uma beleza que não parece interessada em durar. Talvez por isso seja tão bonita.

Existe uma particularidade interessante nos ipês: muitas espécies florescem justamente durante os períodos mais secos do ano. Quando a paisagem parece cansada, quando a vegetação perde parte de seu vigor e a chuva se torna uma lembrança, eles encontram uma maneira de anunciar sua presença. Não esperam que as condições sejam perfeitas. Não aguardam que o mundo se torne mais gentil. Florescem.

Penso que há nisso uma lição que não precisa ser transformada em frase motivacional. Nem toda resistência é barulhenta. Algumas formas de permanecer vivo são silenciosas, quase imperceptíveis, até que um dia se tornam impossíveis de ignorar.

O nome ipê tem origem na língua tupi e está associado à árvore conhecida por sua madeira resistente. Há uma ironia bonita nessa relação: por trás de uma floração tão delicada, existe uma estrutura forte, uma madeira dura, uma árvore capaz de atravessar longos períodos sem oferecer ao mundo a menor demonstração de sua exuberância. Talvez a delicadeza nunca tenha sido o contrário da força. Talvez sejam apenas duas maneiras diferentes de existir.

Na paisagem brasileira, os ipês ocupam um lugar que ultrapassa a botânica. São parte da memória afetiva de cidades, estradas, quintais e praças. Estão nas fotografias feitas às pressas, nas caminhadas interrompidas para admirar uma copa florida, nas lembranças de quem associa determinada época do ano à primeira árvore que resolveu florescer. São testemunhas silenciosas de um país que, mesmo diante de tantas contradições, ainda encontra maneiras de ser bonito.

E há algo de profundamente melancólico na maneira como os ipês-rosas desaparecem.

As flores caem. Primeiro algumas, depois muitas. O chão fica coberto por pétalas, como se alguém tivesse derramado pequenos pedaços de céu sobre a calçada. Aquela exuberância que, dias antes, parecia inesgotável começa a se despedir. O espetáculo termina sem cerimônia, sem aplausos, sem que a árvore peça para ser lembrada.

Talvez seja isso que mais me comova: os ipês não tentam prolongar a própria beleza. Não negociam com o tempo. Não se desesperam diante da queda. Apenas cumprem seu ciclo.

Nós, ao contrário, temos uma dificuldade imensa em aceitar o fim das coisas. Queremos conservar os instantes, guardar as pessoas, impedir que determinadas versões de nós mesmos desapareçam. Temos uma relação quase desesperada com aquilo que passa. Fotografamos, arquivamos, escrevemos, colecionamos lembranças, como se a memória pudesse funcionar como uma espécie de resistência à impermanência.

Mas as flores caem.

E talvez não exista tragédia nisso.

O filósofo Heráclito, ao pensar sobre a transformação constante de todas as coisas, deixou uma das imagens mais conhecidas da filosofia: a impossibilidade de entrar duas vezes no mesmo rio. Tudo flui, tudo se modifica, inclusive aquilo que acreditamos conhecer. Os ipês parecem compreender essa condição sem precisar formular uma teoria. Florescem, oferecem sua beleza ao mundo e depois permitem que ela se vá.

Há também uma dimensão quase ritual nesse acontecimento. Em diferentes culturas, as flores carregam significados ligados à renovação, à passagem do tempo, à memória e à transitoriedade da vida. No Japão, por exemplo, a contemplação das flores de cerejeira, o hanami, transforma a floração em um exercício coletivo de apreciação da beleza passageira. Não são árvores equivalentes, nem representam exatamente a mesma tradição, mas existe uma sensibilidade que aproxima essas experiências: a compreensão de que algumas das coisas mais bonitas da vida são justamente aquelas que não podemos conservar.

Gosto de imaginar que os ipês-rosas não florescem para serem admirados. Florescem porque chegou a hora. E nós, por acaso, temos o privilégio de estar por perto.

Talvez devêssemos aprender a olhar mais para cima. A perceber as árvores que atravessam nossas rotinas, as pequenas mudanças da paisagem, as flores que aparecem sem pedir nossa atenção. Há tanta coisa acontecendo enquanto estamos ocupados demais tentando chegar a algum lugar.

Sei que, em algum momento, aquelas pétalas estarão no chão. Sei que os galhos voltarão a parecer vazios e que a cidade continuará seu movimento indiferente. Mas, durante alguns dias, haverá uma árvore cor-de-rosa no meio de tudo isso. E ela será suficiente para nos lembrar de que a beleza não precisa ser permanente para ser verdadeira.

Os ipês-rosas me fazem pensar que talvez florescer não seja uma promessa de eternidade. Talvez seja apenas a coragem de existir por inteiro no tempo que nos foi dado.

E, quando chegar a hora de deixar as flores caírem, que saibamos fazer isso sem acreditar que perdemos tudo.

Afinal, algumas árvores passam meses preparando uma primavera que dura poucos dias. E ainda assim, ano após ano, encontram motivos para florescer.





terça-feira, 3 de novembro de 2026

Um conto sobre o fim.





Eu morri.

Dizem que, quando estamos perto do fim, voltamos ao começo. Que as memórias passam diante dos nossos olhos como um filme antigo, uma sucessão de cenas que julgávamos esquecidas, mas que, de alguma maneira, permaneceram guardadas em algum lugar da nossa existência. Dizem que vemos os rostos, ouvimos as vozes, revisitamos os lugares e, por alguns segundos, toda uma vida cabe dentro de um instante.

No meu caso, não houve nada.

Meu coração simplesmente parou de bater numa linda tarde de primavera.

Sempre achei que morreria em um dia chuvoso. Combinaria mais com a minha melancolia, com essa maneira quase inconveniente de enxergar tristeza até nos dias mais bonitos. Imaginei muitas vezes a chuva escorrendo pela janela, o céu acinzentado e o mundo seguindo sua rotina enquanto eu, finalmente, deixaria de fazer parte dele. Seria poético, talvez até cinematográfico.

Mas a verdade é que até o dia estava radiante com o meu fim. O sol escaldante brilhava no céu, indiferente à minha partida, como se a natureza não tivesse recebido a notícia de que uma existência havia acabado.

Eu morri.

Não havia música. Nenhuma trilha sonora, nenhum acorde de piano, nenhuma daquelas canções que costumamos associar às despedidas. Os sons que escutei foram de pessoas conversando nas proximidades, passos apressados, vozes que se misturavam e, depois, o silêncio.

Em uma mente sempre tão barulhenta quanto a minha, a ausência de som era gritante.

Foi como desligar um interruptor. De repente, não havia pensamentos, preocupações, lembranças ou perguntas sem respostas. Nenhuma conversa que eu gostaria de ter tido novamente, nenhuma frase que deveria ter dito, nenhuma preocupação com o amanhã. Apenas a escuridão.

E pensar que passei tanto tempo tentando encontrar um pouco de silêncio dentro de mim.

Eu morri.

Dia 04 de novembro. Era apenas mais um dia cheio de compromissos, como tantos outros na minha semana. Havia coisas para resolver, mensagens para responder, tarefas inacabadas e pequenos planos que aguardavam a minha atenção. Não houve um grande aviso, um alarde ou qualquer coisa que pudesse me preparar para o fim.

Foi tão inesperado que me custou acreditar que havia acontecido. O que é curioso, considerando que todos vocês sabem que, de alguma maneira, parecia óbvio que isso aconteceria.

A morte me encontrou em meio a um planejamento de viagens. Encontrou-me fazendo listas, calculando distâncias, procurando lugares desconhecidos e imaginando como seria acordar em uma cidade diferente. Eu estava ocupada pensando em para onde ir, sem imaginar que não chegaria a lugar algum.

Havia uma certa ironia nisso.

Passei boa parte da vida procurando maneiras de escapar. Mudei de planos, de caminhos, de ideias. Às vezes, tudo o que eu queria era desaparecer por alguns dias, desligar o telefone, deixar de ser necessária e experimentar a estranha liberdade de não precisar dar explicações a ninguém.

Talvez eu tenha confundido, em alguns momentos, a vontade de fugir com a vontade de deixar de existir.

A verdade é que eu até durei muito.

Desde pequena, tive alguns encontros mórbidos com a ideia da morte. Dançamos algumas valsas, trocamos alguns beijos e, em determinadas ocasiões, ela pareceu uma companhia familiar demais para alguém que ainda tinha tantos anos pela frente. Mas, dessa vez, não houve convite, negociação ou despedida. A morte não pediu licença, não pediu permissão. Apenas me encontrou e me abraçou.

Eu morri.

Não sei o que escreverão na minha lápide. Talvez escolham uma frase bonita, dessas que parecem explicar uma pessoa inteira em poucas palavras. Talvez alguém se lembre de uma das minhas citações favoritas e decida eternizá-la no mármore. Não sei se adornarão meu túmulo com girassóis, se haverá flores amarelas ou se alguém encomendará uma missa de sétimo dia.

Também não sei quantas pessoas aparecerão.

Sempre achei curioso como a morte transforma as pessoas em assunto. De repente, todos parecem ter uma história para contar, uma lembrança para compartilhar, uma fotografia esquecida na galeria do telefone. As pessoas se encontram para falar sobre alguém que já não pode participar da conversa.

Talvez contem sobre minhas manias, minhas contradições, minhas opiniões inconvenientes e meu jeito de transformar assuntos simples em longas reflexões. Talvez alguém se lembre de uma conversa banal que, para mim, significou muito. Talvez descubram que guardei pequenos gestos de carinho por muito mais tempo do que imaginavam.

Espero que não tentem me transformar em alguém melhor do que fui.

Fui feita de muitas coisas. Algumas bonitas, outras difíceis de explicar. Tive dias em que fui generosa, dias em que fui insuportável, dias em que não consegui oferecer nem a mim mesma a gentileza que oferecia aos outros. Fui contraditória, intensa, exagerada, silenciosa. Algumas vezes, fui tudo isso na mesma tarde.

Não gostaria de ser lembrada como uma pessoa perfeita. A perfeição sempre me pareceu uma forma bastante entediante de existir.

Eu morri.

E, curiosamente, não há mais nada para organizar.

Não preciso responder às mensagens que deixei acumuladas. Não preciso verificar se o trabalho está em ordem, se alguém precisa de alguma coisa ou se esqueci algum compromisso. Não preciso fazer planos para o próximo mês, economizar dinheiro para uma viagem ou pensar no que vestirei na semana seguinte.

Não preciso sorrir quando não tenho vontade.

Não preciso explicar meus silêncios, justificar meus afastamentos ou encontrar palavras bonitas para sentimentos que nem eu mesma consigo compreender.

Não preciso resolver todos os problemas do mundo.

É estranho pensar que a vida inteira pareceu uma sucessão de obrigações, e que, no fim, todas elas continuaram existindo sem mim. O mundo não parou. Os ônibus continuaram circulando, as pessoas continuaram reclamando do calor, alguém perdeu a hora, alguém se apaixonou, uma criança nasceu e uma árvore floresceu em alguma rua que nunca conheci.

A vida tem essa inconveniente capacidade de continuar.

Talvez seja essa a parte mais difícil de compreender: descobrir que somos protagonistas apenas da nossa própria história. Para o restante do mundo, somos personagens que aparecem, deixam algumas falas, atravessam determinadas cenas e, eventualmente, saem de quadro.

E tudo continua.

Eu morri.

Se pudesse deixar alguma coisa, não seriam grandes conselhos. Nunca tive muita habilidade para ensinar a alguém como viver. Mal consegui descobrir como fazer isso comigo mesma.

Talvez deixasse alguns livros com as páginas dobradas, fotografias de lugares que visitei, outras tantas de lugares que gostaria de conhecer. Deixaria minhas anotações, minhas listas intermináveis e os textos que comecei tantas vezes sem conseguir encontrar um final.

Deixaria também as perguntas.

Sempre tive perguntas demais. Sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre a existência, sobre o que significa pertencer a algum lugar. Passei anos tentando compreender coisas que talvez não tivessem explicação. E, no meio de tantas perguntas, esqueci algumas vezes de simplesmente experimentar as respostas que a vida me oferecia.

Gostaria que alguém encontrasse meus escritos e entendesse que, por trás de cada palavra, existia uma pessoa tentando organizar o próprio caos. Uma pessoa que gostava de observar, que se encantava com detalhes, que colecionava referências, que encontrava beleza em coisas que passavam despercebidas.

Uma pessoa que queria conhecer o mundo.

Que queria ver outras cidades, entrar em museus, caminhar por ruas desconhecidas, descobrir histórias escondidas em construções antigas. Que gostava de livros, de música, de conversas longas e de imaginar possibilidades.

Uma pessoa que, apesar de tudo, ainda tinha curiosidade.

Eu morri.

E agora não há mais primavera para mim, nem inverno, nem manhãs preguiçosas ou noites insones. Não há mais aniversários, reencontros, projetos ou promessas. Não há o desconforto de envelhecer, tampouco a expectativa de descobrir quem eu seria daqui a dez anos.

Existe apenas essa estranha interrupção.

Talvez vocês esperassem um grande desfecho. Uma revelação, uma explicação definitiva, uma frase capaz de justificar tudo o que veio antes. Mas não tenho. A vida raramente oferece conclusões satisfatórias, e não vejo por que a morte deveria ser diferente.

Sei apenas que existi.

E existir, por mais contraditório que tenha sido, significou alguma coisa. Pelo menos para mim.

Fui muitas versões de uma mesma pessoa. Algumas ficaram pelo caminho, outras sobreviveram a períodos que pareciam impossíveis de atravessar. Houve momentos em que precisei reaprender a começar, reconstruir pequenas certezas e encontrar motivos para continuar escrevendo, trabalhando, viajando, respirando.

Talvez ninguém tenha percebido quantas vezes precisei recomeçar.

Talvez nem eu tenha percebido.

Mas agora estou aqui, contando o fim de uma história que, até ontem, ainda estava sendo escrita.

Eu morri.

E esta é minha última carta. Meu último registro. Não sei se alguém a encontrará, se alguém compreenderá suas entrelinhas ou se minhas palavras acabarão esquecidas entre tantos outros arquivos perdidos pelo tempo.

Não sei se haverá saudade. Não sei se haverá silêncio quando pronunciarem meu nome. Não sei se alguém olhará para o céu e se lembrará de mim.

Só espero que, quando falarem sobre a minha existência, não se lembrem apenas do meu fim.

Porque antes de morrer, eu vivi.

E, entre tantas coisas que fui, também fui alguém que desejou intensamente conhecer o mundo, que encontrou abrigo nas palavras e que, mesmo quando não sabia muito bem o que fazer da própria existência, continuou procurando alguma coisa bonita para observar.

Talvez seja isso que reste de nós.

Não os dias exatos, não os compromissos cumpridos, não as listas de tarefas ou os problemas que pareciam tão urgentes. Mas os pequenos fragmentos de humanidade que deixamos pelo caminho. Uma conversa, um abraço, uma fotografia, uma frase esquecida na memória de alguém.

O sol ainda brilha lá fora.

E eu morri.



quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O lugar onde você costumava existir

 



Eu sinto sua falta.

Escrevo isso assim, sem enfeites, porque existem dores que não precisam de metáforas para serem imensas. Mas talvez precisem delas para serem suportáveis. Dizer que sinto sua falta parece tão pequeno diante do tamanho da sua ausência. É como tentar guardar um oceano dentro de um copo e fingir que não vai transbordar.

Esses dias, sonhei com você.

No sonho, eu tinha ido te ver de surpresa. Eu, com essa minha mania ridícula de preparar acontecimentos, de arquitetar encontros, de tentar arrancar da vida alguma coisa que se pareça com um milagre. Você nunca gostou muito dessas minhas surpresas. Eu sei. Talvez eu insistisse porque sempre acreditei que algumas alegrias mereciam ser provocadas, que algumas pessoas precisavam ser lembradas de que o mundo ainda era capaz de lhes entregar alguma coisa bonita sem aviso prévio.

Eu fui te ver.

E você estava lá.

Por um instante, tudo em mim descansou. Meu coração, que há tanto tempo parecia viver em estado de espera, finalmente reconheceu alguma coisa. Você sorriu para mim. Acenou. E virou as costas.

Foi só isso.

Nenhum grito, nenhuma discussão, nenhuma palavra cruel que eu pudesse guardar para transformar em raiva depois. Você apenas sorriu, acenou e foi embora, como quem se despede de alguém que encontrou por acaso na rua. Como se eu fosse uma pessoa qualquer. Como se não houvesse uma história inteira entre nós. Como se eu não tivesse passado tanto tempo aprendendo a existir ao seu lado para, agora, precisar aprender a existir sem você.

E eu senti uma dor que não sei explicar. Não sei se existe nome para a sensação de encontrar alguém que se ama e descobrir, mesmo dentro de um sonho, que já não existe lugar para você na vida dessa pessoa. Era como se alguma coisa tivesse sido arrancada de mim sem anestesia. Como se meu corpo tivesse entendido antes de mim que eu havia perdido você de um jeito que nenhuma vontade, nenhuma saudade e nenhuma insistência seriam capazes de consertar.

Acordei, mas a dor não acordou comigo. Ela já estava desperta.

Ficou ali, atravessada no peito, contaminando as horas, alterando a cor das coisas. Tentei continuar o dia, fiz o que precisava fazer, conversei com pessoas, respondi ao mundo quando o mundo me chamou. Por fora, nada havia acontecido. Por dentro, eu ainda estava naquele lugar, vendo você sorrir, acenar e me deixar para trás.

Passei o dia procurando você.

Não de uma maneira consciente, não como quem pega o telefone e decide procurar um nome. Procurei você nos intervalos, nos pequenos acidentes do cotidiano, nos lugares onde minha memória ainda se recusa a aceitar que você não está. Procurei na vontade de contar alguma coisa, no impulso de compartilhar uma bobagem, naquela fração de segundo em que acontece algo engraçado e a gente pensa em quem gostaria de contar antes mesmo de terminar de rir.

Procurei você em todos os lugares e você não estava em nenhum.

E foi então que entendi uma coisa terrível sobre a ausência: ela não consiste apenas em alguém não estar. A ausência é quando alguém continua existindo em todos os seus gestos, mas já não existe do outro lado deles. É quando você ainda tem tanto para dizer e não sabe mais para quem. Quando uma notícia boa chega e, antes de comemorar, você sente o vazio de não poder dividi-la com quem costumava ser testemunha da sua vida. Quando acontece alguma coisa ruim e você percebe que perdeu também o direito de procurar o colo que conhecia.

A ausência é um hábito que sobrevive ao fim de uma história.

É acordar e não contar como foi a noite. É atravessar um dia inteiro sem narrar as pequenas tragédias e as pequenas vitórias que, antes, pareciam importantes justamente porque alguém se importava em ouvi-las. É encontrar uma música, lembrar de uma frase, ver alguma coisa na rua e sentir aquela vontade automática de dizer olha isso, para depois precisar recolher a frase de volta, como quem recolhe os cacos de um copo quebrado com as próprias mãos.

É descobrir que existem coisas que só acontecem uma vez, mesmo quando continuam acontecendo todos os dias.

Eu nunca soube viver pela metade. Sempre tive essa urgência de viver mil vidas dentro de um único dia, de conhecer lugares, ouvir histórias, colecionar experiências, transformar qualquer terça-feira insignificante em alguma coisa que valesse a pena lembrar. Tenho essa fome de mundo, essa pressa de sentir, essa impressão constante de que a vida está acontecendo depressa demais e eu preciso correr para não perder nada.

Você era diferente.

Você gostava da calma, da segurança de um lar, da tranquilidade das coisas que permanecem no mesmo lugar. Enquanto eu queria abrir todas as portas, você parecia preferir a paz de saber que uma delas continuaria aberta para mim.

Éramos opostos em tantas coisas. Talvez até nas maneiras de amar, nas formas de demonstrar, nas expectativas que depositávamos um no outro. Eu queria viver tudo, e você parecia querer apenas que algumas coisas não mudassem nunca.

Mas havia uma contradição bonita entre nós: eu queria conhecer o mundo inteiro, e você era o lugar para onde eu queria voltar.

Você era meu lar.

Ou costumava ser.

E eu não sei em que momento uma pessoa deixa de ser casa. Não sei quando o abraço que parecia abrigo se transforma em lembrança, quando a voz que organizava o caos dentro da gente se torna apenas um som que a memória reproduz sem autorização. Não sei como alguém consegue continuar sendo o lugar mais familiar do mundo mesmo depois de se tornar um lugar ao qual já não podemos voltar.

Só sei que, no dia em que você foi embora, alguma coisa em mim também perdeu o caminho de casa.

Desde então, sinto sua ausência todos os dias. Houve dias em que ela foi discreta, quase educada. Ficou quieta num canto, deixou que eu trabalhasse, risse, saísse, encontrasse pessoas e fingisse que estava tudo bem. Em outros, ocupou tudo. Sentou-se à mesa comigo, deitou na minha cama, acompanhou meus passos e me lembrou, a cada instante, que sobreviver à partida de alguém não significa aprender a viver sem essa pessoa.

Durante muito tempo, tentei me convencer de que era melhor assim.

Repeti para mim mesma que algumas despedidas são necessárias, que nem todo amor consegue permanecer, que às vezes deixar alguém ir é a única forma de não transformar o que foi bonito em alguma coisa irreconhecível. Tentei encontrar dignidade na aceitação, maturidade na distância, algum sentido naquilo que não consegui impedir.

E talvez fosse mesmo o melhor.

Mas existe uma diferença enorme entre compreender que alguma coisa precisava terminar e conseguir suportar o fato de que terminou.

A razão pode construir argumentos muito convincentes. Pode enumerar os motivos, organizar os acontecimentos, explicar por que insistir não adiantaria. Pode até nos convencer de que tomamos a decisão certa. Mas a razão não está presente quando alguma coisa acontece e a primeira pessoa em quem pensamos é aquela que já não está. Não é a razão que sente falta de uma voz, de um jeito particular de rir, de uma presença silenciosa no mesmo ambiente. Não é a razão que, no meio de uma tarde comum, percebe que daria qualquer coisa para contar uma história absolutamente inútil a alguém que provavelmente nem acharia graça.

A razão entende o fim.

O corpo, às vezes, continua esperando.

E eu acho que uma parte de mim ainda espera você em coisas que nem percebo. Na maneira como guardo certas notícias. Na vontade de mostrar alguma coisa que vi. Na expectativa involuntária que nasce e morre em segundos. No espaço que deixo dentro das histórias que conto, como se você ainda pudesse aparecer a qualquer momento e perguntar como foi meu dia.

Faz tempo que não conto meu dia para você.

E parece uma coisa tão pequena, tão banal, tão estúpida de se lamentar diante de tudo o que significa perder alguém. Mas eu sinto falta disso. Sinto falta da intimidade de não precisar transformar a vida em um grande acontecimento para ter algo a compartilhar. Sinto falta de poder dizer que o dia foi cansativo, que comi alguma coisa gostosa, que ouvi uma música que me lembrou você, que alguém disse uma frase absurda, que vi um cachorro na rua, que não aconteceu absolutamente nada.

Principalmente disso: não acontecer nada e, ainda assim, ter você.

Porque o amor também morava nessas coisas que não mereciam ser lembradas. Não apenas nos encontros, nas declarações, nas grandes promessas ou nos momentos que a gente teria vontade de fotografar. Ele morava no banal, no repetido, no desimportante. Na certeza de que, ao fim do dia, existiria alguém para quem a minha existência cotidiana não seria uma informação irrelevante.

Eu não queria apenas os dias extraordinários com você. Queria os dias comuns. Os dias em que nada acontecia, em que não havia surpresas, planos ou grandes motivos para sorrir. Queria a liberdade de existir ao seu lado sem precisar tornar minha existência interessante.

Queria o direito de ser apenas eu, vivendo mais um dia, sabendo que em algum lugar você também estava vivendo o seu.

Talvez seja isso que mais doa: não perder apenas alguém, mas perder a versão da vida em que essa pessoa ainda cabia.

Porque a vida continua. Essa é a crueldade mais banal de todas. O relógio não se comove, as ruas não ficam vazias, as pessoas não interrompem suas conversas para respeitar o que acabou dentro de você. O sol nasce, as contas vencem, o telefone toca, o trabalho espera. Você precisa escolher o que vestir, lembrar de comprar alguma coisa, responder mensagens, tomar decisões. Precisa continuar sendo uma pessoa funcional enquanto carrega dentro do peito uma história que já não tem onde acontecer.

E ninguém percebe a quantidade de vezes que você precisa escolher continuar.

Ninguém vê as pequenas renúncias. A mensagem que você não envia. A lembrança que tenta afastar. A pergunta que engole. A vontade que transforma em silêncio. Ninguém vê quando você deixa de fazer alguma coisa porque sabe que não poderá compartilhar com quem gostaria, ou quando se obriga a não olhar para trás porque tem medo de descobrir que ainda está esperando.

Eu fiz tudo isso. Todos os dias, de um jeito ou de outro, tentei aprender a viver com a sua ausência. Tentei fazer da saudade uma coisa administrável, uma presença que eu pudesse carregar sem deixar que ela me impedisse de caminhar. Tentei acreditar que o tempo faria o que eu não conseguia fazer sozinha.

Mas o tempo tem uma péssima reputação de curandeiro. Às vezes, ele apenas nos ensina a esconder melhor o que continua doendo.

E, quando pensei que estava aprendendo, sonhei com você.

Você sorriu, acenou e me deu as costas.

Acordei com o coração de quem havia perdido você mais uma vez. Como se todas as despedidas anteriores não tivessem sido suficientes. Como se a memória precisasse me colocar diante de uma última crueldade, uma que nem sequer aconteceu, para me lembrar de que a saudade é capaz de inventar cenários e, ainda assim, encontrar maneiras absolutamente reais de nos ferir.

Passei o dia procurando você porque, por algumas horas, não consegui me convencer de que você realmente não estava em lugar nenhum.

E talvez eu nunca consiga me convencer por completo.

Porque ainda existe em mim essa parte absurda, incurável, que acredita que as coisas podem mudar no último instante. Que uma pessoa pode voltar. Que o telefone pode tocar. Que uma porta pode se abrir. Que o mundo, depois de tanta indiferença, pode resolver ser gentil justamente quando já não esperamos mais nada.

Eu não sei viver sem cultivar a esperança de milagres.

Talvez seja o meu jeito de continuar. Talvez seja também a minha maneira mais dolorosa de permanecer presa ao que já passou. Há uma espécie de ingenuidade em mim que insiste em acreditar que nem tudo está decidido, que algumas histórias ainda guardam uma página escondida, que o impossível pode se cansar de ser impossível.

Eu alimento essa esperança mesmo quando sei que não deveria. Dou a ela pequenos espaços, invento possibilidades, imagino reencontros que não confesso a ninguém. Não porque não compreenda a realidade, mas porque compreendê-la não me impede de desejar que ela fosse outra.

E, no fundo, acho que passei tempo demais tentando ser razoável com a minha própria dor.

Como se amar alguém que foi embora exigisse também a obrigação de deixar de sentir. Como se aceitar o fim significasse nunca mais desejar um retorno. Como se eu precisasse provar que superei você, quando a verdade é que existem dias em que tudo o que consigo fazer é atravessar as horas sem deixar que a saudade decida por mim.

Eu esperei tanto que você aparecesse no meu aniversário.

Não precisava ser grandioso. Não precisava de explicações, de discursos, de promessas sobre o futuro. Acho que, em algum lugar secreto de mim, bastava que você estivesse ali. Que, por um instante, o mundo voltasse a fazer sentido daquela maneira antiga. Que eu pudesse olhar para você e sentir que algumas coisas, apesar de tudo, ainda eram possíveis.

Esperei porque não sei viver sem cultivar a esperança de milagres.

E, mais uma vez, eu me decepcionei.

O dia passou. As horas passaram. As pessoas chegaram, os sorrisos aconteceram, a vida se fez presente de tantas maneiras, e eu tentei estar ali por inteiro, porque havia coisas bonitas acontecendo e eu merecia vivê-las. Mas existia também um lugar dentro de mim que continuava atento à possibilidade de você aparecer. Uma parte silenciosa que olhava para cada movimento, que talvez tenha escutado passos imaginários, que guardou até o último instante a esperança de que o impossível resolvesse me encontrar.

Você não veio.

E eu precisei continuar mesmo assim.

Precisei sorrir, agradecer, abraçar as pessoas, viver o meu aniversário sem transformar a sua ausência na protagonista de tudo o que aconteceu. Precisei aceitar que uma data importante para mim talvez não significasse absolutamente nada para você. Que aquilo que eu havia esperado em silêncio não era uma promessa que você tivesse feito, mas uma expectativa que eu, sozinha, mantive viva.

Essa é uma das partes mais difíceis de sentir falta de alguém: perceber que podemos continuar vivendo uma história dentro de nós muito depois de ela ter deixado de existir para a outra pessoa.

Não sei se você pensa em mim. Não sei se alguma coisa cotidiana ainda faz você se lembrar de nós, se alguma música interrompe seus pensamentos, se você já teve vontade de me contar alguma coisa e desistiu antes mesmo de procurar meu nome. Não sei se, em algum momento, a minha ausência atravessou o seu dia com a mesma violência com que a sua atravessa o meu.

E talvez eu nunca saiba.

Mas sei que senti sua falta no meu aniversário. Senti sua falta no dia em que sonhei com você. Senti sua falta nos dias em que nada aconteceu e nos dias em que tanta coisa aconteceu que eu gostaria de ter contado a você. Senti sua falta nas pequenas coisas, nas grandes coisas, nas coisas que nem chegaram a acontecer porque, de alguma maneira, eu ainda as imaginava com você.

Sinto sua falta até quando não estou pensando em você, porque a ausência não precisa de lembranças para existir. Ela já aprendeu os meus caminhos. Conhece a rotina, os horários, os lugares em que costumo baixar a guarda. Sabe quando me encontrar.

E todos os dias, de uma forma ou de outra, ela me encontra.

Eu queria dizer que estou bem. Que aprendi. Que compreendi tudo o que precisava compreender e finalmente consegui deixar você no lugar ao qual pertence: o passado. Queria poder escrever sobre nós com a tranquilidade de quem olha para uma fotografia antiga e sente apenas ternura pelo que viveu.

Mas ainda não consigo.

Há dias em que a saudade é uma fotografia. Em outros, é uma ferida aberta. E há dias, como aquele em que sonhei com você, em que ela parece uma espécie de condenação: a experiência de perder alguém que não está mais ali para ser perdido, e descobrir que o coração não reconhece a diferença.

Eu sinto tanto a sua falta.

Não apenas de quem você foi, mas de quem eu era quando ainda acreditava que você ficaria. Sinto falta da mulher que podia imaginar o futuro sem precisar calcular a possibilidade de uma ausência. Da tranquilidade de não precisar me despedir de você todas as manhãs, porque você ainda fazia parte do meu mundo. Sinto falta de quando a palavra casa não me fazia pensar em alguma coisa que eu já não podia alcançar.

E, se existe alguma coisa que aprendi com tudo isso, é que certas ausências não se encerram quando alguém vai embora. Elas continuam acontecendo. Uma vez na despedida, outra vez no primeiro dia sem a pessoa, outra vez quando você percebe que não sabe mais como contar uma notícia, outra vez quando chega uma data importante, outra vez quando sonha com um reencontro e acorda sozinha.

A ausência acontece de novo e de novo, até nos dias em que juramos que já não dói tanto.

Eu não sei quando vou deixar de procurar você nos lugares onde não está. Não sei quando vou parar de imaginar o que diria se estivesse aqui, ou quando vou conseguir atravessar uma data importante sem reservar, em algum canto de mim, um espaço para a sua chegada.

Só sei que hoje ainda procuro.

Ainda espero, mesmo quando tenho vergonha de esperar. Ainda sinto, mesmo quando gostaria de não sentir. Ainda carrego comigo a contradição de compreender que você foi embora e, ao mesmo tempo, desejar que alguma coisa no universo desfaça o caminho que levou você para longe de mim.

Talvez eu nunca tenha sido muito boa em desistir de milagres.

Mas estou cansada de descobrir que a esperança também pode machucar. Cansada de alimentar possibilidades que só existem do meu lado. Cansada de sentir o peso de uma história que, por mais que eu tente, não consigo carregar sozinha sem me ferir.

E, ainda assim, se me perguntassem o que eu queria ter recebido de presente naquele aniversário, eu não saberia responder sem pensar em você.

Porque algumas pessoas deixam de fazer parte da nossa vida antes de deixarem de fazer parte dos nossos desejos.

E você ainda está nos meus.

É isso que me custa admitir. Não que você tenha ido embora, porque essa parte eu já precisei aceitar tantas vezes. Mas que, mesmo depois de tudo, mesmo depois das ausências, das tentativas de seguir, dos dias em que me convenci de que era melhor assim, ainda existe em mim uma parte que se voltaria inteira para você se, por acaso, você aparecesse à minha porta.

Uma parte que talvez sorrisse antes de chorar.

Uma parte que ainda reconheceria você como casa.

E eu não sei o que fazer com ela.

Não sei como explicar a essa parte de mim que algumas portas não vão se abrir novamente. Não sei como fazê-la entender que sentir falta não é um sinal de que devemos voltar, que amar não garante permanência, que nem toda espera termina em reencontro.

Só sei que, às vezes, fecho os olhos e ainda consigo imaginar como seria contar o meu dia para você.

Então abro os olhos.

E você não está.

Eu sinto tanto sua falta.

E todos os dias isso sangra em mim.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

A mulher que comparecia ao próprio velório

 




Durante onze anos, fui ao meu velório todas as quintas-feiras. Não havia flores, caixão ou parentes chorosos. Apenas eu, sentada no último banco da igreja, observando as pessoas que compareciam para lamentar a mulher que eu poderia ter sido.

A primeira a chegar era sempre minha mãe, com o rosto cansado de quem envelhecera esperando alguma coisa. Depois vinha meu pai, que nunca dizia nada, nem mesmo quando eu era criança e lhe mostrava os desenhos que fazia para merecer sua atenção. Por último, chegava um homem cujo rosto eu conhecia, embora não conseguisse recordar de onde. Ele depositava uma rosa sobre o altar e chorava como se tivesse me amado.

Eu não os culpava. Afinal, os mortos são criaturas convenientes. Não exigem explicações, não decepcionam, não precisam ser compreendidos. Uma pessoa viva é um compromisso; uma pessoa morta, uma lembrança que cada um decora conforme a própria necessidade.

Naquela quinta-feira, porém, havia alguém sentado no meu lugar.

Era uma menina de aproximadamente oito anos, com os joelhos ralados e os cabelos presos de qualquer maneira. Reconheci imediatamente o vestido amarelo, os sapatos apertados e a expressão de quem acabara de descobrir que o mundo não era obrigado a ser gentil.

Sentei-me ao lado dela.

— Você também morreu? — perguntei.

A menina balançou a cabeça.

— Ainda não.

Havia tanta tristeza naquela resposta que senti vergonha de todas as vezes em que desejei desaparecer sem considerar o que deixaria para trás.

— Então por que está aqui?

Ela me olhou com a impaciência característica das crianças diante das perguntas dos adultos.

— Vim buscar você.

Quis rir. Quis dizer que não havia ninguém para buscar, que eu já era grande demais para acreditar em fantasmas e pequena demais para saber viver. Mas a menina segurou minha mão, e percebi que seus dedos eram os mesmos que, muitos anos antes, haviam apertado os meus durante a primeira noite em que pensei que não conseguiria suportar a própria existência.

Naquele instante, a igreja ficou vazia. Minha mãe, meu pai, o homem da rosa: todos desapareceram. Restamos apenas nós duas e o silêncio de tudo o que eu não havia dito a mim mesma.

— Vamos embora — ela pediu.

Levantei-me.

Na saída, olhei uma última vez para o altar. Pela primeira vez em onze anos, não havia ninguém sendo velado.

Havia apenas uma mulher deixando de comparecer à própria ausência.

E, pela primeira vez, isso me pareceu suficiente.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O bolo está marcado. A morte também.



Eu estou planejando meu aniversário. Estou escolhendo o bolo, pensando na comida, calculando quantas pessoas vão caber, escolhendo a música, imaginando quem vai chegar primeiro e quem provavelmente vai atrasar. Estou pensando no vestido, fazendo listas, organizando detalhes, respondendo mensagens, dando risada, publicando coisas e dizendo que estou animada.

E talvez ninguém imagine que, em algum lugar dentro de mim, existe também outro planejamento. Um que ninguém vê. Porque enquanto eu penso no dia 8, também existe uma parte de mim perguntando se eu realmente vou chegar até lá.

Essa é uma das coisas mais cruéis sobre a dor que não aparece. Ela não necessariamente transforma a gente em alguém triste o tempo inteiro. Às vezes, ela deixa a gente funcionando perfeitamente. A gente trabalha, paga contas, responde “estou bem”, faz planos para dezembro, compra uma roupa nova, marca compromissos, comenta uma publicação, ri de uma piada, abraça alguém, compra o próprio bolo. E depois, quando ninguém está olhando, pensa: “Eu não sei se quero continuar”.

É possível estar rodeado de pessoas e se sentir completamente sozinho. É possível amar a própria família e, ainda assim, sentir uma vontade desesperada de desaparecer. É possível querer viver e, ao mesmo tempo, estar cansado demais para continuar tentando. É possível planejar o futuro enquanto uma parte de você acredita que não deveria existir nele.

E talvez seja justamente isso que torne tudo tão difícil de perceber. Nem sempre quem sofre está chorando. Às vezes, está fazendo piada. Às vezes, está trabalhando. Às vezes, está planejando uma festa. Às vezes, está dizendo “depois a gente conversa”. Às vezes, está escolhendo a música que vai tocar no próprio aniversário sem saber se terá forças para chegar até ele.

Por isso, neste Setembro Amarelo, eu não quero falar apenas sobre as pessoas que demonstram que estão mal. Quero falar sobre aquelas que aprenderam a esconder. Sobre quem sorri porque não quer preocupar ninguém. Sobre quem diz “está tudo bem” porque não sabe explicar que não está. Sobre quem continua vivendo não porque a dor acabou, mas porque ainda existe alguma coisa, por menor que seja, segurando essa pessoa aqui.

Pode ser um gato. Uma música. Um amigo. Uma história que ainda não terminou. Um livro que ainda não foi lido. Uma viagem que ainda não aconteceu. Uma festa. Um aniversário. Qualquer coisa.

Às vezes, a esperança não chega como uma grande revelação. Às vezes, ela é só uma pequena coisa que diz: “Aguenta mais um pouco”.

E talvez seja por isso que precisamos perguntar mais. Não apenas “você está bem?”, mas “como você está de verdade?”. Precisamos aprender a permanecer quando a resposta for diferente daquela que esperávamos. Algumas pessoas não precisam de alguém que resolva a vida delas. Precisam de alguém que fique. Que escute. Que não minimize. Que não diga “você tem tudo para ser feliz”. Que não transforme sofrimento em ingratidão. Que não tenha medo de ouvir.

Porque ninguém deveria precisar parecer destruído para merecer cuidado.

E se você está planejando o próximo mês enquanto, secretamente, não sabe se quer estar aqui para vivê-lo, eu espero que você fique. Não precisa resolver a vida inteira hoje. Fique até amanhã. Depois, fique mais um pouco. Conte para alguém. Peça ajuda. Deixe alguém carregar um pedaço desse peso com você.

Porque talvez o futuro que hoje parece impossível ainda tenha coisas que você sequer imagina. Talvez exista uma música que você ainda vai amar, um lugar onde ainda vai querer estar, uma pessoa que ainda vai conhecer, uma gargalhada que ainda não aconteceu, um aniversário que ainda não chegou.

E talvez, um dia, você olhe para tudo isso e perceba: eu quase não cheguei aqui. Mas cheguei.

E isso importa.

Neste Setembro Amarelo, talvez a gente precise parar de procurar apenas quem está chorando e aprender a enxergar também quem está sorrindo enquanto tenta sobreviver. Pergunte. Fique. Escute. Não espere uma prova de sofrimento para oferecer cuidado.

Porque, às vezes, salvar alguém começa simplesmente quando ela percebe que não precisa esconder a própria dor.

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