Saí da vertigem dourada, onde cada pensamento era um raio, cada gesto uma explosão de sol.
A mania me carregava como um deus embriagado, soprando fogo nas veias, fazendo da madrugada um palco, da rua um templo, do corpo um tambor. Eu era infinito, eu era invencível, eu era tudo. O mundo se curvava diante da minha febre, e eu acreditava.
Mas agora… agora o chão me engole. O mesmo corpo que dançava é uma carcaça pesada. O mesmo coração que rugia é um animal ferido, arrastando-se no silêncio. A luz que me incendiava se apagou, e restou apenas o breu viscoso, um breu que não é noite, mas ausência.
Cada palavra pesa toneladas. Cada respiração é uma batalha perdida. O espelho devolve um rosto que não reconheço: olhos que já foram estrelas, agora são buracos negros. A pele é fria, a boca é seca, o pensamento é um cemitério.
Não há música, não há cor, não há promessa. Só o eco daquilo que fui e que não consigo ser mais. A mania me prometeu eternidade, mas a depressão me arranca até o presente. Sou um corpo sentado em ruínas, um coração que pulsa apenas para lembrar que ainda não parou.
E dentro de mim, o contraste é uma ferida aberta: o delírio que me fez gigante, a queda que me faz pó. Sou a mesmo, mas não sou. Sou o palco vazio depois do espetáculo, sou o silêncio que devora os aplausos, sou o deserto depois da tempestade.
E ninguém vê. Ninguém escuta o peso invisível. Ninguém entende que o brilho que me incendiava agora é cinza. E eu caminho, arrastando-me, com a memória de um sol que já não existe, com a certeza de que o abismo não tem fundo.
