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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O bolo está marcado. A morte também.



Eu estou planejando meu aniversário. Estou escolhendo o bolo, pensando na comida, calculando quantas pessoas vão caber, escolhendo a música, imaginando quem vai chegar primeiro e quem provavelmente vai atrasar. Estou pensando no vestido, fazendo listas, organizando detalhes, respondendo mensagens, dando risada, publicando coisas e dizendo que estou animada.

E talvez ninguém imagine que, em algum lugar dentro de mim, existe também outro planejamento. Um que ninguém vê. Porque enquanto eu penso no dia 8, também existe uma parte de mim perguntando se eu realmente vou chegar até lá.

Essa é uma das coisas mais cruéis sobre a dor que não aparece. Ela não necessariamente transforma a gente em alguém triste o tempo inteiro. Às vezes, ela deixa a gente funcionando perfeitamente. A gente trabalha, paga contas, responde “estou bem”, faz planos para dezembro, compra uma roupa nova, marca compromissos, comenta uma publicação, ri de uma piada, abraça alguém, compra o próprio bolo. E depois, quando ninguém está olhando, pensa: “Eu não sei se quero continuar”.

É possível estar rodeado de pessoas e se sentir completamente sozinho. É possível amar a própria família e, ainda assim, sentir uma vontade desesperada de desaparecer. É possível querer viver e, ao mesmo tempo, estar cansado demais para continuar tentando. É possível planejar o futuro enquanto uma parte de você acredita que não deveria existir nele.

E talvez seja justamente isso que torne tudo tão difícil de perceber. Nem sempre quem sofre está chorando. Às vezes, está fazendo piada. Às vezes, está trabalhando. Às vezes, está planejando uma festa. Às vezes, está dizendo “depois a gente conversa”. Às vezes, está escolhendo a música que vai tocar no próprio aniversário sem saber se terá forças para chegar até ele.

Por isso, neste Setembro Amarelo, eu não quero falar apenas sobre as pessoas que demonstram que estão mal. Quero falar sobre aquelas que aprenderam a esconder. Sobre quem sorri porque não quer preocupar ninguém. Sobre quem diz “está tudo bem” porque não sabe explicar que não está. Sobre quem continua vivendo não porque a dor acabou, mas porque ainda existe alguma coisa, por menor que seja, segurando essa pessoa aqui.

Pode ser um gato. Uma música. Um amigo. Uma história que ainda não terminou. Um livro que ainda não foi lido. Uma viagem que ainda não aconteceu. Uma festa. Um aniversário. Qualquer coisa.

Às vezes, a esperança não chega como uma grande revelação. Às vezes, ela é só uma pequena coisa que diz: “Aguenta mais um pouco”.

E talvez seja por isso que precisamos perguntar mais. Não apenas “você está bem?”, mas “como você está de verdade?”. Precisamos aprender a permanecer quando a resposta for diferente daquela que esperávamos. Algumas pessoas não precisam de alguém que resolva a vida delas. Precisam de alguém que fique. Que escute. Que não minimize. Que não diga “você tem tudo para ser feliz”. Que não transforme sofrimento em ingratidão. Que não tenha medo de ouvir.

Porque ninguém deveria precisar parecer destruído para merecer cuidado.

E se você está planejando o próximo mês enquanto, secretamente, não sabe se quer estar aqui para vivê-lo, eu espero que você fique. Não precisa resolver a vida inteira hoje. Fique até amanhã. Depois, fique mais um pouco. Conte para alguém. Peça ajuda. Deixe alguém carregar um pedaço desse peso com você.

Porque talvez o futuro que hoje parece impossível ainda tenha coisas que você sequer imagina. Talvez exista uma música que você ainda vai amar, um lugar onde ainda vai querer estar, uma pessoa que ainda vai conhecer, uma gargalhada que ainda não aconteceu, um aniversário que ainda não chegou.

E talvez, um dia, você olhe para tudo isso e perceba: eu quase não cheguei aqui. Mas cheguei.

E isso importa.

Neste Setembro Amarelo, talvez a gente precise parar de procurar apenas quem está chorando e aprender a enxergar também quem está sorrindo enquanto tenta sobreviver. Pergunte. Fique. Escute. Não espere uma prova de sofrimento para oferecer cuidado.

Porque, às vezes, salvar alguém começa simplesmente quando ela percebe que não precisa esconder a própria dor.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Alguns amores mudam de lugar

 




Talvez uma das formas mais bonitas de amar alguém seja aprender a permanecer, mesmo quando não se pode ficar.

Existem pessoas que entram na nossa vida e, sem perceber, tornam-se parte dos lugares que a gente nem sabia que existiam dentro de nós. Elas ocupam espaços nas músicas, nos pensamentos antes de dormir, nas lembranças que surgem sem aviso e até naquele silêncio estranho que aparece quando percebemos que gostaríamos de contar alguma coisa para elas.

E então, um dia, a distância acontece.

Às vezes ela vem em quilômetros.
Às vezes em escolhas.
Às vezes em um silêncio que ninguém sabe explicar.

E é estranho como alguém pode estar tão longe e, ainda assim, tão perto.

Porque a ausência não apaga imediatamente aquilo que a presença construiu. O carinho continua existindo. A saudade continua encontrando caminhos. E algumas memórias parecem ter decidido morar na gente, mesmo depois que as pessoas partiram.

Talvez seja por isso que Never Be Alone doa tanto.

Porque não fala apenas sobre estar ao lado de alguém. Fala sobre a promessa de não deixar que essa pessoa se sinta abandonada, mesmo quando você não puder segurá-la pela mão.

E existe uma diferença enorme entre não estar sozinho e ter alguém por perto.

Às vezes, estamos cercados de pessoas e ainda assim sentimos um vazio impossível de explicar. Outras vezes, estamos completamente sozinhos em um quarto, mas uma lembrança é suficiente para fazer companhia.

Talvez amar seja também isso: deixar uma parte de si para que o outro possa encontrá-la quando precisar.

É dizer:

Quando o mundo parecer grande demais, lembre-se de que um dia alguém te amou.
Quando a noite parecer longa demais, lembre-se de que você já foi o lugar seguro de alguém.
Quando sentir que ninguém percebe a sua ausência, saiba que existem pessoas que ainda reconhecem o espaço que você deixou.

Nem todo amor consegue permanecer da maneira que gostaríamos.

Alguns ficam.
Alguns partem.
Alguns se transformam em amizade.
Alguns viram saudade.
Alguns terminam sem realmente acabar.

E talvez essa seja uma das partes mais amargas de amar: entender que nem sempre podemos salvar uma história apenas porque ainda sentimos alguma coisa.

Há momentos em que tudo o que podemos fazer é guardar o que foi bonito e aceitar que determinadas pessoas não foram feitas para permanecer ao nosso lado para sempre.

Mas isso não significa que tenham sido passageiras.

Porque existem pessoas que ficam pouco tempo e deixam marcas que duram anos.

Existem abraços que terminam, mas continuam aquecendo a memória.

Existem conversas que acabam, mas continuam acontecendo dentro da nossa cabeça.

Existem despedidas que nunca parecem completas porque uma parte da gente continua esperando ouvir, mais uma vez, aquela voz dizendo que vai ficar tudo bem.

Mesmo que a vida mude.

Mesmo que os caminhos se separem.

Mesmo que um dia a gente deixe de saber como o outro está.

Porque desejar que alguém fique bem também é uma forma de amor.

E talvez o amor mais bonito não seja aquele que exige presença constante, respostas imediatas ou promessas eternas.

Talvez seja aquele que consegue olhar para a distância e dizer:

“Eu não posso estar aqui agora. Mas isso não significa que você esteja sozinho.”

Então, se algum dia a saudade apertar, não tenha vergonha dela.

Saudade é a prova de que alguma coisa foi importante.

Se algum dia você se sentir perdido, lembre-se de todas as versões de você que já sobreviveram a dias difíceis.

E se algum dia o silêncio fizer parecer que ninguém se importa, lembre-se de que o silêncio nem sempre significa esquecimento.

Algumas pessoas simplesmente não sabem mais como voltar.

Algumas não podem voltar.

E algumas talvez tenham ido embora justamente porque permanecer teria machucado ainda mais.

Mas isso não diminui o que existiu.

Há amores que não terminam com uma última palavra.

Eles apenas mudam de lugar.

Deixam de morar na rotina e passam a morar na memória.

Deixam de ser presença e tornam-se lembrança.

Deixam de ser “nós” e passam a ser “um dia”.

E, ainda assim, quando uma determinada música toca, quando uma noite fica silenciosa demais ou quando o coração decide revisitar aquilo que a cabeça tentou esquecer...

aquela pessoa está ali novamente.

Por alguns minutos, não existe distância.

Não existe tempo.

Não existe fim.

Existe apenas a lembrança de quando vocês ainda estavam juntos no mesmo lugar do mundo.

E talvez seja suficiente.

Porque algumas pessoas não precisam permanecer fisicamente para nunca serem esquecidas.

Elas permanecem naquilo que ensinaram, naquilo que despertaram, nas versões de nós mesmos que nasceram depois delas.

E talvez seja essa a promessa mais bonita que alguém pode deixar:

“Mesmo que eu não esteja mais aqui, espero que você nunca se sinta sozinho.”

Porque, no fim, talvez ninguém consiga nos acompanhar durante toda a vida.

Mas algumas pessoas conseguem nos ensinar que, mesmo nos momentos em que caminhamos sozinhos, nunca precisamos acreditar que estamos completamente sozinhos.

E talvez amar seja exatamente isso:

partir sem apagar.
distanciar sem abandonar.
lembrar sem possuir.
e continuar desejando luz para alguém, mesmo quando a nossa própria estrada já seguiu por outro caminho.


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Sobre eclipses e aquilo que a gente chama de escuridão

 




Hoje o céu vai nos lembrar de uma coisa que a gente costuma esquecer: a luz não desaparece só porque, por algum instante, deixou de alcançar os nossos olhos. Um eclipse acontece quando dois corpos se encontram no lugar exato, no instante exato, e um deles passa diante daquilo que parecia impossível de esconder. O sol continua lá. A lua continua lá. E, ainda assim, por alguns minutos, tudo parece diferente. Talvez a vida também seja feita desses encontros estranhos entre luz e sombra.

Existem momentos em que alguma coisa passa na frente de nós e encobre aquilo que antes parecia tão claro. Às vezes é uma perda. Às vezes é uma decepção. Às vezes é o cansaço de continuar sendo forte quando ninguém percebe o esforço que isso exige. Às vezes é alguém que vai embora levando consigo uma versão nossa que só existia quando aquela pessoa estava por perto. E existem sombras que nem sabemos nomear. Apenas acordamos um dia e percebemos que alguma coisa dentro da gente escureceu.

O mais difícil é que, quando estamos no meio da sombra, temos a tendência de acreditar que ela é permanente. A gente olha para o céu e pensa que o sol sumiu. Olha para dentro e pensa que aquela parte de nós nunca mais vai voltar. Confundimos ausência de luz com ausência da própria luz.

Mas o eclipse sabe uma coisa que nós demoramos muito para aprender: algumas sombras são apenas travessias.

Nem toda escuridão é um destino. Algumas são apenas o resultado de alguma coisa passando pela nossa frente. E talvez seja por isso que certos períodos da vida pareçam tão desproporcionais ao que realmente são. A dor ocupa tanto espaço que parece impossível imaginar o mundo depois dela. O silêncio fica tão alto que a gente esquece como era ouvir a própria voz. A saudade se torna tão presente que parece mais real do que a pessoa que partiu. E, por algum tempo, tudo o que conseguimos enxergar é aquilo que está bloqueando a luz.

Mas o sol não negocia com a sombra. Ele simplesmente continua existindo.

E talvez haja uma delicadeza nisso. Saber que aquilo que nos ilumina não precisa da nossa percepção para continuar sendo real. Há coisas que permanecem mesmo quando não conseguimos senti-las. Há afetos que continuam existindo sem que precisem voltar. Há versões nossas que não morreram — apenas estão esperando que alguma coisa saia da frente para que possamos reconhecê-las novamente.

Talvez crescer seja também aprender a não ter tanto medo dos eclipses.

Aprender que haverá dias em que seremos inteiros e dias em que nos sentiremos incompletos. Haverá manhãs em que acordaremos cheios de vontade de viver e noites em que a única coisa possível será sobreviver ao próprio pensamento. Haverá pessoas que serão sol em determinadas épocas e sombra em outras. Haverá portas que se fecharão justamente quando tínhamos certeza de que finalmente tínhamos encontrado um lugar para ficar.

E tudo bem.

Nem todo encontro foi feito para durar. Nem toda luz foi feita para permanecer sobre nós para sempre. Algumas pessoas chegam para iluminar um pedaço específico do caminho. Algumas ficam. Algumas partem. Algumas deixam saudade. Algumas deixam cicatrizes. E algumas, mesmo depois de irem embora, continuam existindo em pequenas coisas: numa música, num cheiro, numa rua, numa frase que nunca mais conseguimos ouvir da mesma maneira.

Talvez o erro esteja em pensar que, para seguir em frente, precisamos apagar tudo aquilo que nos machucou.

Talvez não.

Talvez algumas sombras precisem ser lembradas não para que continuemos vivendo dentro delas, mas para que nunca esqueçamos que conseguimos atravessá-las.

Hoje, enquanto o céu muda de cor, talvez seja bonito lembrar que nós também mudamos. Que já fomos pessoas que juraram nunca superar certas dores e, ainda assim, chegamos até aqui. Que já houve noites que pareciam não terminar e, de alguma maneira, a manhã veio. Que já perdemos pessoas, lugares, sonhos e versões de nós mesmos que acreditávamos serem permanentes. E mesmo assim, continuamos.

Continuamos.

Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas sobre estar vivo: a gente nunca sabe exatamente quando a luz vai voltar, mas, de alguma forma, continua olhando para o céu.

Então, se hoje alguma coisa dentro de você estiver escura, não tenha tanta pressa de consertá-la. Não transforme todo silêncio em problema. Não exija de si mesmo a obrigação de estar bem só porque o mundo continua funcionando.

Há sombras que precisam apenas passar.

Fique um pouco.

Respire.

Observe.

Porque, enquanto você pensa que perdeu a luz, talvez ela esteja apenas escondida atrás de alguma coisa que, assim como tudo no universo, também vai seguir seu caminho.

E quando seguir, quando a luz voltar a tocar aquilo que estava escondido, talvez você perceba que não voltou a ser quem era antes.

Talvez tenha se tornado alguém diferente.

Alguém que conhece a escuridão e, justamente por isso, aprendeu a reconhecer a luz.

E talvez seja essa a verdadeira beleza dos eclipses: eles não existem para provar que a luz pode desaparecer.

Existem para nos lembrar de que mesmo quando não conseguimos vê-la, ela continua lá.

sábado, 22 de agosto de 2026

Eu tenho uma velha amiga

 





Eu não consigo me lembrar exatamente quando nos conhecemos. Às vezes penso que ela sempre esteve aqui, sentada em algum canto, esperando o momento certo para se apresentar. Durante muito tempo eu não sabia seu nome. Achava que algumas pessoas simplesmente eram assim. Mais intensas. Mais impulsivas. Mais sensíveis. Mais animadas. Mais tristes. Achava que talvez eu tivesse nascido com uma quantidade exagerada de sentimentos e que precisasse apenas aprender a conviver com eles. Eu não sabia que havia uma explicação para algumas das coisas que aconteciam dentro de mim. Não sabia que existia um nome para aquela sensação de estar acelerada demais, nem para os períodos em que eu parecia ter sido desligada da tomada. Não sabia que aquela pessoa que passava noites acordada cheia de planos e aquela outra que mal conseguia levantar da cama eram, de alguma maneira, a mesma pessoa. Eu.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

E durante muito tempo eu gostei dela.

Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de admitir.

Porque quando ela chega trazendo euforia, eu não quero que ela vá embora. Ela chega fazendo tudo parecer possível. As ideias aparecem em uma velocidade que eu mal consigo acompanhar, os planos se multiplicam, as palavras saem da minha boca antes mesmo que eu consiga organizá-las na cabeça e existe uma sensação quase inexplicável de que finalmente alguma coisa dentro de mim está funcionando como deveria. Eu quero fazer tudo. Quero começar projetos, resolver problemas, conhecer lugares, conversar com pessoas, organizar minha vida inteira, mudar coisas, comprar coisas, criar coisas. Tenho uma certeza absurda de que dessa vez vai ser diferente, de que finalmente descobri quem eu sou e do que sou capaz. Eu durmo pouco e não sinto falta do sono. Às vezes acho até que dormir é uma perda de tempo, porque existem tantas coisas para fazer, tantos pensamentos para colocar em prática, tantos planos esperando por mim. E minha velha amiga fica ali, sorrindo, alimentando cada uma dessas certezas. Ela diz que eu consigo. Diz que eu sou capaz. Diz que eu não preciso parar. E eu acredito.

Talvez porque, naquele momento, tudo dentro de mim pareça verdade.

Eu não sei explicar para alguém que nunca viveu isso como é sentir a própria mente correndo na frente do corpo. É como tentar acompanhar uma pessoa que conhece o caminho enquanto você ainda está tentando entender onde está. Os pensamentos chegam todos juntos. Uma ideia puxa outra, que puxa outra, que lembra uma coisa que eu precisava fazer, que me faz lembrar de uma pessoa para quem eu precisava mandar mensagem, que me faz pensar em um projeto que poderia começar, que me faz imaginar como seria se eu mudasse completamente alguma coisa na minha vida. E, quando percebo, estou no meio de uma tempestade de pensamentos que não parece exatamente ruim. Pelo contrário. Às vezes parece maravilhosa. É como se meu cérebro tivesse aberto todas as janelas ao mesmo tempo e deixado entrar uma quantidade absurda de ar.

O problema é que eu nunca sei quando o vento vai mudar.

Porque muda.

Sempre muda.

E é aí que eu percebo que minha velha amiga não veio apenas para me ensinar a correr. Ela também sabe me ensinar a parar.

Só que ela não sabe parar devagar.

Ela simplesmente apaga as luzes.

Um dia eu estou cheia de planos e, algum tempo depois, estou olhando para eles sem entender como consegui acreditar que daria conta de tudo. As coisas que pareciam urgentes deixam de fazer sentido. As mensagens ficam difíceis de responder. Os compromissos começam a parecer montanhas. Tomar banho pode exigir uma negociação comigo mesma. Levantar da cama deixa de ser uma coisa automática e passa a ser uma decisão. E existe uma culpa enorme porque eu me lembro de quem eu era alguns dias antes. Eu me lembro da energia, da disposição, das promessas que fiz, das coisas que comecei, das pessoas para quem disse que faria alguma coisa. E então me pergunto por que agora não consigo nem terminar aquilo que comecei.

É como se eu tivesse sido duas pessoas e nenhuma delas soubesse conversar direito com a outra.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

Ela me ensinou que a minha própria memória pode ser cruel. Porque quando estou mal, eu me lembro de tudo o que fiz quando estava acelerada. E quando estou acelerada, eu não consigo imaginar que algum dia vou ficar daquela maneira novamente. Em um momento eu penso que nunca mais vou precisar de ajuda, porque estou ótima. No outro, penso que nunca mais vou ficar bem, porque estou péssima. E talvez uma das coisas mais cansativas seja justamente tentar descobrir qual dessas certezas merece ser ouvida.

Porque as duas parecem verdade quando chegam.

Eu já tive momentos em que me senti invencível. E também já tive momentos em que me senti completamente quebrada. Já olhei para mim mesma e pensei que finalmente estava conseguindo. E já olhei para a mesma pessoa no espelho sem conseguir reconhecer quem estava ali. Já fui extremamente produtiva e já passei dias tentando encontrar forças para realizar tarefas que, para qualquer outra pessoa, pareciam absolutamente simples. Já falei demais, pensei demais, planejei demais, senti demais. E também já fiquei em silêncio porque não havia absolutamente nada dentro de mim que eu conseguisse transformar em palavra.

E talvez seja isso que mais confunda as pessoas.

Porque de fora, às vezes, eu pareço apenas uma pessoa indecisa.

Às vezes pareço preguiçosa.

Às vezes pareço irresponsável.

Às vezes pareço exagerada.

Às vezes pareço feliz demais.

Às vezes pareço triste demais.

E quase ninguém vê o esforço que existe entre uma versão e outra.

Ninguém vê a quantidade de vezes que eu preciso me observar para tentar perceber se estou mudando. Ninguém vê que, para mim, algumas coisas precisam ser medidas. O sono. A impulsividade. A velocidade dos pensamentos. A vontade de fazer mil coisas ao mesmo tempo. A vontade de não fazer absolutamente nada. Ninguém vê que às vezes eu preciso parar e me perguntar se aquilo que estou sentindo é realmente uma decisão ou apenas uma fase falando mais alto dentro de mim.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

E ela já me fez duvidar de mim mesma muitas vezes.

Já me fez acreditar que eu era extraordinária e, depois, que eu era um fracasso. Já me fez fazer promessas que eu não conseguiria cumprir. Já me fez começar coisas que não terminei. Já me fez falar coisas que depois precisei explicar. Já me fez tomar decisões no calor de sentimentos que pareciam permanentes, mas que não eram. Já me fez sentir vergonha de mim mesma. E, talvez pior do que tudo isso, já me fez acreditar que eu precisava pedir desculpas por existir de uma maneira que nem sempre consigo controlar.

Mas existe uma coisa que eu precisei aprender depois de muito tempo: eu não sou todas as coisas que faço quando estou em um episódio. Eu não sou a minha impulsividade. Eu não sou a minha apatia. Eu não sou a minha euforia. Eu não sou o meu desânimo. Eu não sou cada pensamento que atravessa a minha cabeça. Eu sou a pessoa que precisa aprender a viver com tudo isso.

E isso é muito diferente.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

Ela ainda aparece.

Às vezes chega fazendo barulho. Às vezes chega tão silenciosamente que só percebo quando já estou muito longe de mim mesma. Às vezes eu reconheço seus passos. Outras vezes sou pega completamente desprevenida. E eu ainda não sei lidar com ela todos os dias da mesma maneira. Existem dias em que consigo perceber que alguma coisa está mudando e procuro ajuda antes que a mudança fique grande demais. Existem outros em que eu só percebo depois. E eu precisei aprender que isso não significa fracasso.

Porque viver com uma mente que muda de ritmo não é simplesmente “ter altos e baixos”.

É aprender a reconhecer os próprios sinais.

É tentar entender quando a empolgação está deixando de ser apenas felicidade e começando a virar alguma coisa que precisa de atenção. É perceber quando o cansaço deixou de ser apenas cansaço. É entender que nem toda vontade precisa virar ação e que nem todo pensamento precisa ser obedecido. É aceitar que às vezes eu preciso diminuir o ritmo, mesmo quando tenho certeza de que consigo continuar. E também entender que, quando tudo parece pesado demais, talvez eu não esteja sendo fraca. Talvez eu esteja apenas atravessando uma fase que precisa de cuidado.

Eu demorei para entender isso.

Demorei para parar de me culpar.

Demorei para perceber que pedir ajuda não significa que eu perdi.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

E eu não vou fingir que gosto dela.

Não gosto.

Não acho bonito o caos que ela provoca. Não acho poético perder noites de sono, fazer escolhas impulsivas, sentir a cabeça acelerada até o corpo não conseguir acompanhar, nem passar dias olhando para o teto tentando descobrir de onde tirar forças para levantar. Não quero transformar isso em uma história bonita porque nem tudo precisa ser bonito para ter significado.

Há coisas que simplesmente doem.

Há dias em que eu sinto falta de uma versão mais previsível de mim mesma. Há dias em que gostaria de saber exatamente como vou acordar amanhã. Há dias em que queria poder confiar que meu humor permanecerá no mesmo lugar por tempo suficiente para que eu consiga fazer planos sem medo de não conseguir cumpri-los.

Mas existem também os dias tranquilos.

E hoje eu aprendi a valorizá-los.

Os dias em que acordo e minha cabeça está silenciosa. Os dias em que consigo dormir e não sinto que estou perdendo tempo. Os dias em que tenho vontade de fazer alguma coisa, mas não sinto necessidade de fazer tudo. Os dias em que consigo ficar triste sem acreditar que a tristeza será eterna. Os dias em que consigo estar feliz sem sentir que preciso transformar aquela felicidade em uma avalanche de decisões.

Nesses dias, eu consigo respirar.

E talvez seja nesses dias que eu mais consiga perceber quem eu sou.

Não a pessoa eufórica.

Não a pessoa deprimida.

Não a pessoa impulsiva.

Não a pessoa apática.

Eu.

A pessoa que existe no intervalo.

A pessoa que continua tentando se conhecer.

A pessoa que erra, aprende, pede desculpas, recomeça, descansa, trabalha, ama, ri, chora, cria, destrói algumas coisas e reconstrói outras.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

Ela provavelmente vai continuar fazendo parte da minha história.

Mas hoje eu sei que uma história pode ter uma personagem sem que essa personagem seja a protagonista.

Ela pode aparecer.

Pode falar alto.

Pode tentar assumir o controle.

Mas a vida ainda é minha.

E talvez sobreviver não seja encontrar uma maneira de silenciá-la para sempre.

Talvez seja aprender a reconhecer sua voz sem confundi-la com a minha.

Porque, no fim das contas, eu tenho uma velha amiga.

O nome dela é bipolaridade.

Mas eu ainda estou aprendendo a descobrir o meu próprio nome longe dela.

sábado, 15 de agosto de 2026

Quando finalmente nos escolhem, talvez já não sejamos mais os mesmos




Existe uma espécie de ironia delicada nas coisas que desejamos por muito tempo.

Passamos meses imaginando como seria finalmente receber aquilo que um dia nos faltou. Ensaiamos conversas na cabeça, imaginamos pedidos de desculpas, respostas, reencontros. Construímos pequenas cenas em que, finalmente, alguém percebe nosso valor e decide ficar.

E talvez a gente acredite que, quando isso acontecer, alguma coisa dentro de nós vai finalmente descansar.

Só que às vezes acontece.

A pessoa volta.

As palavras chegam.

Os pedidos de desculpas aparecem.

As mensagens se tornam frequentes.

Os planos são novamente mencionados.

O carinho retorna, tímido no começo, depois cada vez mais presente.

E, estranhamente, alguma coisa dentro da gente permanece em silêncio.

Não porque não exista afeto.

Não porque tenhamos deixado de gostar.

Mas porque, enquanto esperávamos que alguém voltasse, nós fomos embora daquele lugar onde esperávamos por ela.

Talvez seja uma das coisas mais curiosas sobre o tempo: ele não apenas muda as circunstâncias. Ele muda quem somos dentro delas.

Há um momento em que desejamos desesperadamente ser escolhidos.

Queremos que alguém olhe para nós e diga: é você.

E quando isso finalmente acontece, descobrimos que existe uma pergunta muito mais difícil:

"Mas eu ainda escolho você?"

Porque ser escolhido por alguém não é necessariamente o final feliz que imaginávamos.

Às vezes é apenas o começo de uma avaliação silenciosa.

Não mais sobre o nosso valor, esse já não deveria estar em discussão, mas sobre compatibilidade, confiança, presença, maturidade e vontade.

Começamos a olhar menos para aquilo que é dito e mais para aquilo que permanece quando a conversa termina. Promessas deixam de ser acontecimentos e passam a ser apenas possibilidades. "Eu vou" já não provoca a mesma emoção. Agora esperamos o dia em que a pessoa realmente vai. "Eu quero te ver" já não é suficiente. Queremos saber quando. "Eu me importo" é bonito. Mas queremos descobrir como esse cuidado aparece quando ninguém está tentando impressionar ninguém. Talvez amadurecer afetivamente seja, em parte, isso: parar de se apaixonar pelo potencial e começar a observar a realidade.

E isso pode ser estranhamente decepcionante. Porque o potencial é perfeito. Ele nunca se atrasa. Nunca esquece. Nunca contradiz o que prometeu. Nunca nos decepciona porque existe apenas na imaginação. A realidade, por outro lado, chega cheia de pequenas imperfeições. Ela demora. Falha. Esquece. Cumpre algumas coisas e não cumpre outras. Tem dias bons e dias péssimos. E é justamente nela que precisamos decidir se existe algo que vale a pena continuar conhecendo.

Talvez por isso, às vezes, aquilo que chamamos de "perder o encanto" não seja exatamente deixar de sentir. Talvez seja perder a ilusão. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas. A ilusão dizia:

"Quando essa pessoa me escolher, finalmente vou me sentir suficiente." A maturidade responde:

"Eu já sou suficiente. Agora preciso descobrir se essa pessoa é suficiente para aquilo que eu quero viver."

É uma inversão quase imperceptível. Antes, esperávamos ser avaliados. Agora, também observamos.

Antes, qualquer gesto parecia uma prova de amor. Agora, aprendemos a olhar para a constância.

Antes, uma declaração podia reorganizar nosso mundo inteiro. Agora, ouvimos, sorrimos e pensamos:

"Que bonito. Vamos ver."

E talvez esse "vamos ver" seja uma das formas mais bonitas de liberdade. Não é frieza. Não é vingança.

Não é orgulho. É simplesmente não entregar novamente o coração antes que a realidade prove que sabe segurá-lo. Porque perdoar alguém não significa devolver imediatamente a confiança que existia antes. Amar alguém não significa estar disponível para qualquer coisa. E reconhecer que alguém está tentando não significa esquecer que um dia essa mesma pessoa nos fez sangrar. Algumas feridas cicatrizam tão bem que deixam de doer, mas ainda nos ensinam onde não colocar a mão.

E tudo bem. Não precisamos transformar quem nos machucou em vilão para reconhecer que aquilo nos fez mal. Também não precisamos transformar alguém em herói só porque voltou. Há pessoas que nos amam. Há pessoas que tentam. Há pessoas que estão aprendendo a amar melhor. E há pessoas que, apesar de tudo isso, talvez simplesmente não combinem mais com a versão de nós que sobreviveu àquilo que elas mesmas ajudaram a causar. Talvez esse seja o lado mais amargo e, ao mesmo tempo, mais doce de crescer: às vezes conseguimos aquilo que tanto queríamos e descobrimos que já não precisamos daquilo para sermos felizes.

E talvez o verdadeiro final feliz nunca tenha sido alguém finalmente nos escolher. Talvez tenha sido o dia em que percebemos que podemos ser escolhidos, desejados, amados, e ainda assim continuar perguntando, com calma:

"Mas isso é o que eu quero para mim?"

Porque depois de tanto tempo tentando convencer alguém a ficar, existe uma liberdade imensa em simplesmente sentar, observar e deixar que a pessoa mostre quem é. Sem correr. Sem implorar. Sem idealizar. Sem fechar a porta por raiva. Sem mantê-la aberta por esperança. Apenas deixando a vida responder. E talvez seja isso que acontece quando finalmente deixamos de esperar: descobrimos que não estávamos esperando alguém voltar. Estávamos esperando por nós mesmos. E, quando finalmente voltamos para dentro de nós, qualquer pessoa que queira entrar terá que encontrar a porta, não mais aberta por carência, mas por escolha.

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