Eu sinto sua falta.
Escrevo isso assim, sem enfeites, porque existem dores que não precisam de metáforas para serem imensas. Mas talvez precisem delas para serem suportáveis. Dizer que sinto sua falta parece tão pequeno diante do tamanho da sua ausência. É como tentar guardar um oceano dentro de um copo e fingir que não vai transbordar.
Esses dias, sonhei com você.
No sonho, eu tinha ido te ver de surpresa. Eu, com essa minha mania ridícula de preparar acontecimentos, de arquitetar encontros, de tentar arrancar da vida alguma coisa que se pareça com um milagre. Você nunca gostou muito dessas minhas surpresas. Eu sei. Talvez eu insistisse porque sempre acreditei que algumas alegrias mereciam ser provocadas, que algumas pessoas precisavam ser lembradas de que o mundo ainda era capaz de lhes entregar alguma coisa bonita sem aviso prévio.
Eu fui te ver.
E você estava lá.
Por um instante, tudo em mim descansou. Meu coração, que há tanto tempo parecia viver em estado de espera, finalmente reconheceu alguma coisa. Você sorriu para mim. Acenou. E virou as costas.
Foi só isso.
Nenhum grito, nenhuma discussão, nenhuma palavra cruel que eu pudesse guardar para transformar em raiva depois. Você apenas sorriu, acenou e foi embora, como quem se despede de alguém que encontrou por acaso na rua. Como se eu fosse uma pessoa qualquer. Como se não houvesse uma história inteira entre nós. Como se eu não tivesse passado tanto tempo aprendendo a existir ao seu lado para, agora, precisar aprender a existir sem você.
E eu senti uma dor que não sei explicar. Não sei se existe nome para a sensação de encontrar alguém que se ama e descobrir, mesmo dentro de um sonho, que já não existe lugar para você na vida dessa pessoa. Era como se alguma coisa tivesse sido arrancada de mim sem anestesia. Como se meu corpo tivesse entendido antes de mim que eu havia perdido você de um jeito que nenhuma vontade, nenhuma saudade e nenhuma insistência seriam capazes de consertar.
Acordei, mas a dor não acordou comigo. Ela já estava desperta.
Ficou ali, atravessada no peito, contaminando as horas, alterando a cor das coisas. Tentei continuar o dia, fiz o que precisava fazer, conversei com pessoas, respondi ao mundo quando o mundo me chamou. Por fora, nada havia acontecido. Por dentro, eu ainda estava naquele lugar, vendo você sorrir, acenar e me deixar para trás.
Passei o dia procurando você.
Não de uma maneira consciente, não como quem pega o telefone e decide procurar um nome. Procurei você nos intervalos, nos pequenos acidentes do cotidiano, nos lugares onde minha memória ainda se recusa a aceitar que você não está. Procurei na vontade de contar alguma coisa, no impulso de compartilhar uma bobagem, naquela fração de segundo em que acontece algo engraçado e a gente pensa em quem gostaria de contar antes mesmo de terminar de rir.
Procurei você em todos os lugares e você não estava em nenhum.
E foi então que entendi uma coisa terrível sobre a ausência: ela não consiste apenas em alguém não estar. A ausência é quando alguém continua existindo em todos os seus gestos, mas já não existe do outro lado deles. É quando você ainda tem tanto para dizer e não sabe mais para quem. Quando uma notícia boa chega e, antes de comemorar, você sente o vazio de não poder dividi-la com quem costumava ser testemunha da sua vida. Quando acontece alguma coisa ruim e você percebe que perdeu também o direito de procurar o colo que conhecia.
A ausência é um hábito que sobrevive ao fim de uma história.
É acordar e não contar como foi a noite. É atravessar um dia inteiro sem narrar as pequenas tragédias e as pequenas vitórias que, antes, pareciam importantes justamente porque alguém se importava em ouvi-las. É encontrar uma música, lembrar de uma frase, ver alguma coisa na rua e sentir aquela vontade automática de dizer olha isso, para depois precisar recolher a frase de volta, como quem recolhe os cacos de um copo quebrado com as próprias mãos.
É descobrir que existem coisas que só acontecem uma vez, mesmo quando continuam acontecendo todos os dias.
Eu nunca soube viver pela metade. Sempre tive essa urgência de viver mil vidas dentro de um único dia, de conhecer lugares, ouvir histórias, colecionar experiências, transformar qualquer terça-feira insignificante em alguma coisa que valesse a pena lembrar. Tenho essa fome de mundo, essa pressa de sentir, essa impressão constante de que a vida está acontecendo depressa demais e eu preciso correr para não perder nada.
Você era diferente.
Você gostava da calma, da segurança de um lar, da tranquilidade das coisas que permanecem no mesmo lugar. Enquanto eu queria abrir todas as portas, você parecia preferir a paz de saber que uma delas continuaria aberta para mim.
Éramos opostos em tantas coisas. Talvez até nas maneiras de amar, nas formas de demonstrar, nas expectativas que depositávamos um no outro. Eu queria viver tudo, e você parecia querer apenas que algumas coisas não mudassem nunca.
Mas havia uma contradição bonita entre nós: eu queria conhecer o mundo inteiro, e você era o lugar para onde eu queria voltar.
Você era meu lar.
Ou costumava ser.
E eu não sei em que momento uma pessoa deixa de ser casa. Não sei quando o abraço que parecia abrigo se transforma em lembrança, quando a voz que organizava o caos dentro da gente se torna apenas um som que a memória reproduz sem autorização. Não sei como alguém consegue continuar sendo o lugar mais familiar do mundo mesmo depois de se tornar um lugar ao qual já não podemos voltar.
Só sei que, no dia em que você foi embora, alguma coisa em mim também perdeu o caminho de casa.
Desde então, sinto sua ausência todos os dias. Houve dias em que ela foi discreta, quase educada. Ficou quieta num canto, deixou que eu trabalhasse, risse, saísse, encontrasse pessoas e fingisse que estava tudo bem. Em outros, ocupou tudo. Sentou-se à mesa comigo, deitou na minha cama, acompanhou meus passos e me lembrou, a cada instante, que sobreviver à partida de alguém não significa aprender a viver sem essa pessoa.
Durante muito tempo, tentei me convencer de que era melhor assim.
Repeti para mim mesma que algumas despedidas são necessárias, que nem todo amor consegue permanecer, que às vezes deixar alguém ir é a única forma de não transformar o que foi bonito em alguma coisa irreconhecível. Tentei encontrar dignidade na aceitação, maturidade na distância, algum sentido naquilo que não consegui impedir.
E talvez fosse mesmo o melhor.
Mas existe uma diferença enorme entre compreender que alguma coisa precisava terminar e conseguir suportar o fato de que terminou.
A razão pode construir argumentos muito convincentes. Pode enumerar os motivos, organizar os acontecimentos, explicar por que insistir não adiantaria. Pode até nos convencer de que tomamos a decisão certa. Mas a razão não está presente quando alguma coisa acontece e a primeira pessoa em quem pensamos é aquela que já não está. Não é a razão que sente falta de uma voz, de um jeito particular de rir, de uma presença silenciosa no mesmo ambiente. Não é a razão que, no meio de uma tarde comum, percebe que daria qualquer coisa para contar uma história absolutamente inútil a alguém que provavelmente nem acharia graça.
A razão entende o fim.
O corpo, às vezes, continua esperando.
E eu acho que uma parte de mim ainda espera você em coisas que nem percebo. Na maneira como guardo certas notícias. Na vontade de mostrar alguma coisa que vi. Na expectativa involuntária que nasce e morre em segundos. No espaço que deixo dentro das histórias que conto, como se você ainda pudesse aparecer a qualquer momento e perguntar como foi meu dia.
Faz tempo que não conto meu dia para você.
E parece uma coisa tão pequena, tão banal, tão estúpida de se lamentar diante de tudo o que significa perder alguém. Mas eu sinto falta disso. Sinto falta da intimidade de não precisar transformar a vida em um grande acontecimento para ter algo a compartilhar. Sinto falta de poder dizer que o dia foi cansativo, que comi alguma coisa gostosa, que ouvi uma música que me lembrou você, que alguém disse uma frase absurda, que vi um cachorro na rua, que não aconteceu absolutamente nada.
Principalmente disso: não acontecer nada e, ainda assim, ter você.
Porque o amor também morava nessas coisas que não mereciam ser lembradas. Não apenas nos encontros, nas declarações, nas grandes promessas ou nos momentos que a gente teria vontade de fotografar. Ele morava no banal, no repetido, no desimportante. Na certeza de que, ao fim do dia, existiria alguém para quem a minha existência cotidiana não seria uma informação irrelevante.
Eu não queria apenas os dias extraordinários com você. Queria os dias comuns. Os dias em que nada acontecia, em que não havia surpresas, planos ou grandes motivos para sorrir. Queria a liberdade de existir ao seu lado sem precisar tornar minha existência interessante.
Queria o direito de ser apenas eu, vivendo mais um dia, sabendo que em algum lugar você também estava vivendo o seu.
Talvez seja isso que mais doa: não perder apenas alguém, mas perder a versão da vida em que essa pessoa ainda cabia.
Porque a vida continua. Essa é a crueldade mais banal de todas. O relógio não se comove, as ruas não ficam vazias, as pessoas não interrompem suas conversas para respeitar o que acabou dentro de você. O sol nasce, as contas vencem, o telefone toca, o trabalho espera. Você precisa escolher o que vestir, lembrar de comprar alguma coisa, responder mensagens, tomar decisões. Precisa continuar sendo uma pessoa funcional enquanto carrega dentro do peito uma história que já não tem onde acontecer.
E ninguém percebe a quantidade de vezes que você precisa escolher continuar.
Ninguém vê as pequenas renúncias. A mensagem que você não envia. A lembrança que tenta afastar. A pergunta que engole. A vontade que transforma em silêncio. Ninguém vê quando você deixa de fazer alguma coisa porque sabe que não poderá compartilhar com quem gostaria, ou quando se obriga a não olhar para trás porque tem medo de descobrir que ainda está esperando.
Eu fiz tudo isso. Todos os dias, de um jeito ou de outro, tentei aprender a viver com a sua ausência. Tentei fazer da saudade uma coisa administrável, uma presença que eu pudesse carregar sem deixar que ela me impedisse de caminhar. Tentei acreditar que o tempo faria o que eu não conseguia fazer sozinha.
Mas o tempo tem uma péssima reputação de curandeiro. Às vezes, ele apenas nos ensina a esconder melhor o que continua doendo.
E, quando pensei que estava aprendendo, sonhei com você.
Você sorriu, acenou e me deu as costas.
Acordei com o coração de quem havia perdido você mais uma vez. Como se todas as despedidas anteriores não tivessem sido suficientes. Como se a memória precisasse me colocar diante de uma última crueldade, uma que nem sequer aconteceu, para me lembrar de que a saudade é capaz de inventar cenários e, ainda assim, encontrar maneiras absolutamente reais de nos ferir.
Passei o dia procurando você porque, por algumas horas, não consegui me convencer de que você realmente não estava em lugar nenhum.
E talvez eu nunca consiga me convencer por completo.
Porque ainda existe em mim essa parte absurda, incurável, que acredita que as coisas podem mudar no último instante. Que uma pessoa pode voltar. Que o telefone pode tocar. Que uma porta pode se abrir. Que o mundo, depois de tanta indiferença, pode resolver ser gentil justamente quando já não esperamos mais nada.
Eu não sei viver sem cultivar a esperança de milagres.
Talvez seja o meu jeito de continuar. Talvez seja também a minha maneira mais dolorosa de permanecer presa ao que já passou. Há uma espécie de ingenuidade em mim que insiste em acreditar que nem tudo está decidido, que algumas histórias ainda guardam uma página escondida, que o impossível pode se cansar de ser impossível.
Eu alimento essa esperança mesmo quando sei que não deveria. Dou a ela pequenos espaços, invento possibilidades, imagino reencontros que não confesso a ninguém. Não porque não compreenda a realidade, mas porque compreendê-la não me impede de desejar que ela fosse outra.
E, no fundo, acho que passei tempo demais tentando ser razoável com a minha própria dor.
Como se amar alguém que foi embora exigisse também a obrigação de deixar de sentir. Como se aceitar o fim significasse nunca mais desejar um retorno. Como se eu precisasse provar que superei você, quando a verdade é que existem dias em que tudo o que consigo fazer é atravessar as horas sem deixar que a saudade decida por mim.
Eu esperei tanto que você aparecesse no meu aniversário.
Não precisava ser grandioso. Não precisava de explicações, de discursos, de promessas sobre o futuro. Acho que, em algum lugar secreto de mim, bastava que você estivesse ali. Que, por um instante, o mundo voltasse a fazer sentido daquela maneira antiga. Que eu pudesse olhar para você e sentir que algumas coisas, apesar de tudo, ainda eram possíveis.
Esperei porque não sei viver sem cultivar a esperança de milagres.
E, mais uma vez, eu me decepcionei.
O dia passou. As horas passaram. As pessoas chegaram, os sorrisos aconteceram, a vida se fez presente de tantas maneiras, e eu tentei estar ali por inteiro, porque havia coisas bonitas acontecendo e eu merecia vivê-las. Mas existia também um lugar dentro de mim que continuava atento à possibilidade de você aparecer. Uma parte silenciosa que olhava para cada movimento, que talvez tenha escutado passos imaginários, que guardou até o último instante a esperança de que o impossível resolvesse me encontrar.
Você não veio.
E eu precisei continuar mesmo assim.
Precisei sorrir, agradecer, abraçar as pessoas, viver o meu aniversário sem transformar a sua ausência na protagonista de tudo o que aconteceu. Precisei aceitar que uma data importante para mim talvez não significasse absolutamente nada para você. Que aquilo que eu havia esperado em silêncio não era uma promessa que você tivesse feito, mas uma expectativa que eu, sozinha, mantive viva.
Essa é uma das partes mais difíceis de sentir falta de alguém: perceber que podemos continuar vivendo uma história dentro de nós muito depois de ela ter deixado de existir para a outra pessoa.
Não sei se você pensa em mim. Não sei se alguma coisa cotidiana ainda faz você se lembrar de nós, se alguma música interrompe seus pensamentos, se você já teve vontade de me contar alguma coisa e desistiu antes mesmo de procurar meu nome. Não sei se, em algum momento, a minha ausência atravessou o seu dia com a mesma violência com que a sua atravessa o meu.
E talvez eu nunca saiba.
Mas sei que senti sua falta no meu aniversário. Senti sua falta no dia em que sonhei com você. Senti sua falta nos dias em que nada aconteceu e nos dias em que tanta coisa aconteceu que eu gostaria de ter contado a você. Senti sua falta nas pequenas coisas, nas grandes coisas, nas coisas que nem chegaram a acontecer porque, de alguma maneira, eu ainda as imaginava com você.
Sinto sua falta até quando não estou pensando em você, porque a ausência não precisa de lembranças para existir. Ela já aprendeu os meus caminhos. Conhece a rotina, os horários, os lugares em que costumo baixar a guarda. Sabe quando me encontrar.
E todos os dias, de uma forma ou de outra, ela me encontra.
Eu queria dizer que estou bem. Que aprendi. Que compreendi tudo o que precisava compreender e finalmente consegui deixar você no lugar ao qual pertence: o passado. Queria poder escrever sobre nós com a tranquilidade de quem olha para uma fotografia antiga e sente apenas ternura pelo que viveu.
Mas ainda não consigo.
Há dias em que a saudade é uma fotografia. Em outros, é uma ferida aberta. E há dias, como aquele em que sonhei com você, em que ela parece uma espécie de condenação: a experiência de perder alguém que não está mais ali para ser perdido, e descobrir que o coração não reconhece a diferença.
Eu sinto tanto a sua falta.
Não apenas de quem você foi, mas de quem eu era quando ainda acreditava que você ficaria. Sinto falta da mulher que podia imaginar o futuro sem precisar calcular a possibilidade de uma ausência. Da tranquilidade de não precisar me despedir de você todas as manhãs, porque você ainda fazia parte do meu mundo. Sinto falta de quando a palavra casa não me fazia pensar em alguma coisa que eu já não podia alcançar.
E, se existe alguma coisa que aprendi com tudo isso, é que certas ausências não se encerram quando alguém vai embora. Elas continuam acontecendo. Uma vez na despedida, outra vez no primeiro dia sem a pessoa, outra vez quando você percebe que não sabe mais como contar uma notícia, outra vez quando chega uma data importante, outra vez quando sonha com um reencontro e acorda sozinha.
A ausência acontece de novo e de novo, até nos dias em que juramos que já não dói tanto.
Eu não sei quando vou deixar de procurar você nos lugares onde não está. Não sei quando vou parar de imaginar o que diria se estivesse aqui, ou quando vou conseguir atravessar uma data importante sem reservar, em algum canto de mim, um espaço para a sua chegada.
Só sei que hoje ainda procuro.
Ainda espero, mesmo quando tenho vergonha de esperar. Ainda sinto, mesmo quando gostaria de não sentir. Ainda carrego comigo a contradição de compreender que você foi embora e, ao mesmo tempo, desejar que alguma coisa no universo desfaça o caminho que levou você para longe de mim.
Talvez eu nunca tenha sido muito boa em desistir de milagres.
Mas estou cansada de descobrir que a esperança também pode machucar. Cansada de alimentar possibilidades que só existem do meu lado. Cansada de sentir o peso de uma história que, por mais que eu tente, não consigo carregar sozinha sem me ferir.
E, ainda assim, se me perguntassem o que eu queria ter recebido de presente naquele aniversário, eu não saberia responder sem pensar em você.
Porque algumas pessoas deixam de fazer parte da nossa vida antes de deixarem de fazer parte dos nossos desejos.
E você ainda está nos meus.
É isso que me custa admitir. Não que você tenha ido embora, porque essa parte eu já precisei aceitar tantas vezes. Mas que, mesmo depois de tudo, mesmo depois das ausências, das tentativas de seguir, dos dias em que me convenci de que era melhor assim, ainda existe em mim uma parte que se voltaria inteira para você se, por acaso, você aparecesse à minha porta.
Uma parte que talvez sorrisse antes de chorar.
Uma parte que ainda reconheceria você como casa.
E eu não sei o que fazer com ela.
Não sei como explicar a essa parte de mim que algumas portas não vão se abrir novamente. Não sei como fazê-la entender que sentir falta não é um sinal de que devemos voltar, que amar não garante permanência, que nem toda espera termina em reencontro.
Só sei que, às vezes, fecho os olhos e ainda consigo imaginar como seria contar o meu dia para você.
Então abro os olhos.
E você não está.
Eu sinto tanto sua falta.
E todos os dias isso sangra em mim.
