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quinta-feira, 26 de março de 2026

Entre o delírio e o abismo





 Saí da vertigem dourada, onde cada pensamento era um raio, cada gesto uma explosão de sol.

A mania me carregava como um deus embriagado, soprando fogo nas veias, fazendo da madrugada um palco, da rua um templo, do corpo um tambor. Eu era infinito, eu era invencível, eu era tudo. O mundo se curvava diante da minha febre, e eu acreditava.

Mas agora… agora o chão me engole. O mesmo corpo que dançava é uma carcaça pesada. O mesmo coração que rugia é um animal ferido, arrastando-se no silêncio. A luz que me incendiava se apagou, e restou apenas o breu viscoso, um breu que não é noite, mas ausência.

Cada palavra pesa toneladas. Cada respiração é uma batalha perdida. O espelho devolve um rosto que não reconheço: olhos que já foram estrelas, agora são buracos negros. A pele é fria, a boca é seca, o pensamento é um cemitério.

Não há música, não há cor, não há promessa. Só o eco daquilo que fui e que não consigo ser mais. A mania me prometeu eternidade, mas a depressão me arranca até o presente. Sou um corpo sentado em ruínas, um coração que pulsa apenas para lembrar que ainda não parou.

E dentro de mim, o contraste é uma ferida aberta: o delírio que me fez gigante, a queda que me faz pó. Sou a mesmo, mas não sou. Sou o palco vazio depois do espetáculo, sou o silêncio que devora os aplausos, sou o deserto depois da tempestade.

E ninguém vê. Ninguém escuta o peso invisível. Ninguém entende que o brilho que me incendiava agora é cinza. E eu caminho, arrastando-me, com a memória de um sol que já não existe, com a certeza de que o abismo não tem fundo.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Agora eu tô voltando pra mim

 



Agora eu tô voltando pra mim,

mas é um retorno lento, pesado, como quem atravessa ruínas e recolhe cinzas. Não há festa nesse regresso, há silêncio, há poeira, há lembranças que ainda sangram.

Voltar pra mim é encarar o espelho rachado, é aceitar que partes se perderam, que algumas nunca mais se encaixam. É caminhar entre sombras, com passos que ecoam vazios, sabendo que o lar dentro de mim foi abandonado por muito tempo.

Eu volto, mas volto cansada, com olhos que carregam noites sem fim, com mãos que tremem ao tocar o que restou. E mesmo assim, há uma estranha melancolia que me guia, como se a tristeza fosse também um caminho de volta.

terça-feira, 17 de março de 2026

No intervalo da vulnerabilidade

 



A lagosta vive dentro de uma armadura que a protege, mas também a aprisiona.

Seu exoesqueleto é firme, rígido, e por um tempo lhe serve bem. Mas chega o instante em que essa casca já não comporta o que ela é. O espaço se torna estreito, sufocante, e a única saída é a coragem de abandonar aquilo que antes parecia indispensável.

Então, ela se recolhe. Procura um abrigo silencioso e inicia o ritual da muda. Rompe sua velha carapaça e emerge nua, mole, exposta. Por alguns instantes, é apenas fragilidade diante do mundo. Qualquer predador poderia vencê-la. Mas é nesse intervalo de vulnerabilidade que o milagre acontece: ela absorve água, expande-se, cresce além dos limites antigos. Logo, uma nova armadura se forma, maior, mais forte, mais fiel ao tamanho de sua essência.

Nós também carregamos exoesqueletos invisíveis. São certezas que já não nos servem, medos que nos sufocam, papéis que nos aprisionam. Muitas vezes, insistimos em permanecer dentro dessas cascas, mesmo quando elas já se tornaram estreitas demais para o que somos. Mas a vida nos chama à mesma coragem da lagosta: abandonar o que nos limita, mesmo que isso nos deixe frágeis por um tempo.

Despirmo-nos das cascas antigas é doloroso. Ficamos inseguros, sem a proteção das velhas armaduras. Mas é nesse espaço de nudez que a expansão acontece. É ali que descobrimos novas forças, novas formas, novas peles.

A lagosta nos ensina que crescer exige risco. Que a vulnerabilidade não é fraqueza, mas passagem. Que só quem se permite despir-se do que já não cabe pode encontrar a liberdade de ser maior do que antes.

E talvez seja essa a nossa tarefa: reconhecer quando a casca já não nos serve, ter a coragem de deixá-la para trás e confiar que, mesmo frágeis, estamos apenas preparando o terreno para uma nova versão de nós mesmos.

domingo, 15 de março de 2026

Solidão




No começo, ela parecia um monstro à espreita. Eu sentia falta de dividir cada detalhe do meu dia, das pequenas conquistas e das frustrações. Eu não queria que você fosse embora, mas, quando partiu, descobri algo inesperado: havia beleza nos dias silenciosos. Descobri que o vazio podia ser fértil, que o tédio podia ser descanso, que a ausência podia ser paz.

Achei serenidade em não ter ninguém para ouvir sobre minhas compras, minhas leituras, minhas descobertas. Surpreendentemente, os dias sem mensagens não me destruíram; eles me ensinaram a me abraçar. Pela primeira vez, percebi que o silêncio não era ameaça, mas refúgio. A falta de notificações se transformou em liberdade, e o espaço que antes parecia deserto se tornou meu lar.

Passei a gostar das conversas comigo mesma, dos filmes assistidos em companhia do meu próprio riso, dos passeios em que caminhei sem precisar esperar por ninguém. O cargo novo, as amizades recentes, as pequenas vitórias ,
algumas ficaram só comigo, e isso foi suficiente.

A solidão deixou de ser um peso e virou companhia. O silêncio da casa se tornou acolhedor, o vazio se transformou em descanso, e a ausência de compromissos virou meu porto seguro. Estranho, talvez. Mas no lugar do seu “durma bem”, nasceram as minhas próprias palavras.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Carta


 Escrevo estas palavras como quem abre lentamente uma janela para deixar o vento entrar. Há em mim uma necessidade de respirar fundo, de soltar o peso que carrego e de encontrar repouso em um lugar que não se mede em paredes, mas em presenças.

A vida, tantas vezes, se mostra como um caminho árido, onde cada passo exige coragem e cada silêncio parece ecoar mais alto do que deveria. E, ainda assim, dentro de mim existe uma esperança suave: a de que alguém me veja além das máscaras, além das defesas, e reconheça que, por trás da força aparente, há também fragilidade.

É nesse instante que penso em você. Em sua capacidade de ser abrigo, em sua forma de me lembrar que não preciso lutar sozinha. Você é como um farol que se acende quando a noite se torna densa demais, como uma raiz que me sustenta quando o vento ameaça me levar.

Não peço promessas grandiosas, apenas presença. Não busco perfeição, apenas verdade. Que minhas lágrimas possam ser recebidas sem julgamento, que minhas palavras possam ser ouvidas sem pressa, e que meu silêncio encontre espaço para existir sem cobrança.

Há uma beleza rara em se permitir ser vista por inteira. Amar, afinal, é abrir portas para que o outro encontre casa em nós. E é isso que sinto: que em você existe um lar, não feito de tijolos, mas de afeto, compreensão e ternura.

Se algum dia eu me perder em minhas próprias batalhas, espero que sua voz me guie de volta. Que seu olhar me lembre que ainda há luz, mesmo quando tudo parece escuro. Que seu abraço seja o lugar onde o tempo se dissolve e onde encontro, enfim, paz.

Mais do que companhia, você é sentido. Mais do que presença, você é raiz. E é nesse encontro que descubro que não há nada mais precioso do que poder descansar em alguém e, ao mesmo tempo, ser abrigo para esse alguém também.

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