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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Quando Ninguém Está Olhando

 






Você sabia que eu não durmo bem há muito tempo?

Que, para mim, dormir nem sempre significa descansar. Às vezes significa atravessar uma porta que eu não quero abrir. Significa enfrentar sonhos que parecem mais reais do que deveriam ser, acordar cansada, como se eu tivesse passado a noite inteira lutando batalhas invisíveis. Há noites em que tenho medo de fechar os olhos, porque não sei o que vou encontrar do outro lado.

Você sabia que eu sinto medo com mais frequência do que demonstro?

Que muitas das vezes em que pareço forte, decidida e corajosa, estou apenas escolhendo continuar apesar do medo? As pessoas costumam confundir coragem com ausência de temor, mas a verdade é que a coragem nasce justamente quando o medo está presente. E eu aprendi a caminhar carregando os dois.

Você sabia que eu me acostumei a resolver tudo sozinha?

Que me tornei especialista em juntar os próprios pedaços, encontrar saídas, apagar incêndios e seguir em frente? Que aprendi tão cedo a não depender de ninguém que hoje isso parece natural? Mas o fato de eu conseguir não significa que não doa. Não significa que eu não me canse. Não significa que eu não deseje, às vezes, que alguém simplesmente percebesse o peso que estou carregando e dissesse: "Você não precisa fazer tudo sozinha."

Você sabia que existem dias em que meu coração parece carregado de rachaduras invisíveis?

Dias em que sinto tanto, mas tanto, que parece impossível caber dentro de mim. Emoções que se acumulam em silêncio, dores que não encontram palavras, saudades que nem sempre têm nome. E mesmo assim eu sorrio. Não porque esteja tudo bem, mas porque aprendi a continuar. Porque a vida segue exigindo movimento, mesmo quando por dentro tudo parece suspenso.

Você sabia que existe uma exaustão que o descanso não cura?

Uma exaustão que nasce de estar sempre alerta, sempre preocupada, sempre tentando prever problemas antes que eles aconteçam. Uma exaustão de quem está constantemente calculando riscos, administrando responsabilidades, tentando ser forte para si mesma e para os outros.

Você sabia que, muitas vezes, minha mente é o lugar mais difícil em que já vivi?

Que existem pensamentos que insistem em me convencer de que eu deveria ser melhor, produzir mais, conquistar mais, suportar mais? Que existe uma cobrança constante, uma sensação permanente de que ainda falta alguma coisa, de que eu ainda não fiz o suficiente, não fui o suficiente, não conquistei o suficiente?

E você sabia que esse "suficiente" nunca chega?

Porque toda vez que alcanço uma meta, outra aparece. Toda vez que supero uma dificuldade, surge uma nova exigência. Como se eu estivesse correndo atrás de uma linha de chegada que se afasta a cada passo.

Você sabia que às vezes me sinto invisível?

Não porque as pessoas não me vejam, mas porque raramente enxergam tudo o que existe por trás do sorriso, da competência, da independência. Elas veem a pessoa que resolve, que ajuda, que dá conta. Mas poucas percebem a pessoa que também gostaria de ser acolhida, compreendida e cuidada.

Você sabia que, por trás da minha força, existe uma parte de mim que também sente medo de não ser importante?

Que às vezes me pergunto se realmente faço diferença na vida das pessoas? Se minha ausência seria percebida. Se o carinho que ofereço encontra morada em algum lugar além de mim.

Você sabia que muitas das batalhas mais difíceis que enfrento acontecem em silêncio?

Sem testemunhas. Sem aplausos. Sem reconhecimento.

E, ainda assim, todos os dias eu me levanto.

Todos os dias eu tento de novo.

Todos os dias eu escolho continuar acreditando que existe algo além do cansaço, além do medo, além da tristeza que às vezes tenta ocupar espaço demais.

Porque, apesar de tudo, existe uma parte de mim que ainda sonha.

Uma parte que continua procurando beleza nas pequenas coisas. Que ainda se emociona com gestos simples, com palavras sinceras, com momentos de paz inesperados. Uma parte que continua acreditando que viver pode ser mais do que sobreviver.

Talvez ninguém veja todas as vezes em que eu precisei ser forte.

Talvez ninguém saiba quantas lágrimas eu engoli para continuar sorrindo.

Talvez ninguém imagine quantas vezes eu me reconstruí em silêncio.

Mas eu sei.

E, às vezes, isso precisa ser suficiente.

Porque existir já exige coragem.

E eu tenho sido corajosa há muito mais tempo do que qualquer pessoa imagina. 

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