Páginas

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Entre Fissuras e Silêncios

 




Sangrar por sentir demais é como carregar um rio dentro do peito , um rio que nunca encontra margens, que insiste em se derramar sobre tudo o que sou. Não é o sangue literal, mas uma corrente invisível que nasce da intensidade. Cada emoção que me atravessa abre uma fissura, e eu me descubro vulnerável, exposta, incapaz de conter o excesso.

Há dias em que esse sangrar é silencioso, quase imperceptível, como uma chuva fina que molha sem que se perceba. Em outros, é tempestade: um transbordamento que me arranca do chão e me deixa à deriva. Não existe curativo para isso, porque não é uma ferida que cicatriza. É uma condição de existir. É o preço de sentir o mundo em sua totalidade, sem filtros, sem reservas.

Sangro quando amo, porque amar é sempre mais do que posso suportar. Sangro quando perco, porque cada ausência se torna um abismo. Sangro quando me reconheço frágil, porque a fragilidade é uma verdade que não sei esconder. E nesse fluxo constante, percebo que sangrar é também uma forma de testemunho: é a prova de que não sou pedra, não sou muro, não sou indiferente.

O que escorre de mim não é algo que se estanca. É memória, é saudade, é desejo, é dor. É também beleza, porque há uma estranha poesia em se deixar atravessar por tudo. Sangrar é aceitar que não há contenção possível, que viver é se perder em pedaços e ainda assim continuar.

E talvez, no fundo, esse sangrar seja a minha forma mais honesta de existir. É o que me mantém humana, mesmo quando dói. É o que me lembra que sentir é sempre um risco, mas também é sempre um milagre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...