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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Saudade em carne viva


 Ela ama como quem sangra.

Ama como quem se entrega ao fogo sem medo de se consumir. Cada hambúrguer feito ao lado dele era mais que alimento, era rito, era pacto, era a prova de que o banal pode ser sagrado. Os gatos que se aproximavam eram testemunhas silenciosas de um amor que transbordava até nos gestos mais pequenos.

Eles se perdiam em séries, filmes, animes, mundos inteiros atravessados juntos, como se nada pudesse separá-los. Mas agora, o tempo é cruel. Ela precisa voltar, precisa partir, precisa rasgar o próprio coração para obedecer ao destino.

Voltar à cidade natal, ao lugar onde as ruas guardam memórias antigas, mas não o calor dos braços dele. E a saudade já é um rio que transborda antes mesmo da distância se instalar.

Ela sente falta do toque, do riso, da rotina que parecia banal mas era sagrada. Sente falta do instante em que o mundo se tornava pequeno, reduzido ao espaço entre eles. E cada noite é uma espera, cada manhã é uma contagem regressiva.

E a saudade já é um monstro. Ela a sente antes mesmo da distância, como se cada segundo longe fosse uma lâmina. O corpo pede o toque dele, a pele clama pelo calor, o silêncio da noite é um abismo sem o riso compartilhado.

Ela carrega o gosto, o som da voz dele como cicatrizes invisíveis. E cada lembrança é faca: o hambúrguer que não terá o mesmo sabor, o gato que não terá o mesmo carinho, a tela acesa que não terá o mesmo brilho.

O amor deles é visceral, feito de carne e ausência, feito de suor e promessa. E mesmo que o tempo os arraste para lados opostos, ela sabe: não há distância que apague o incêndio que arde dentro dela. A saudade é dor, mas também é prova. Prova de que amar é sobreviver ao vazio, e esperar o reencontro como quem espera a própria salvação.

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