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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A beleza de partir

 




Eu já me sinto ausente, como se minha presença fosse apenas um reflexo do que fui. É estranho perceber que estou aqui, mas ao mesmo tempo já parti. Cada gesto, cada palavra, carrega o peso de um adeus silencioso. Não é uma fuga, não é abandono , é apenas o reconhecimento de que certas histórias não podem continuar, por mais que o coração insista em permanecer.

O tempo me ensinou que deixar ir é também um ato de amor. Não há raiva em mim, não há ruptura brusca; há apenas a delicadeza de soltar, de permitir que o outro siga livre, É como abrir a mão e ver uma folha ser levada pelo vento: ela não deixa de existir, apenas encontra novos horizontes.

Eu caminho com a sensação de já estar distante, e nesse espaço entre o que foi e o que não será, descubro uma beleza inesperada. A fragilidade de partir revela uma força silenciosa: a coragem de aceitar que o ciclo se cumpriu. E mesmo na ausência, há ternura. Porque o amor não se mede pela permanência, mas pela intensidade com que tocou nossa pele, nossa alma, nosso tempo.

Não significa desaparecer. Significa permanecer de outra forma: como lembrança, como cicatriz que se transforma em mapa, como música que ecoa mesmo quando o som já se apagou. Eu sou o sopro de um instante eterno, o traço invisível que continua a habitar os lugares onde fui feliz.

E nesse estado de partida, percebo que não há vazio. Há continuidade. Eu já fui, mas continuo sendo, em cada memória que floresce, em cada silêncio que guarda meu nome, em cada olhar que ainda me procura. O que se perde é apenas a forma; o que permanece é a essência.

Assim, aceito minha ausência como parte da vida. Já me fui, mas sigo presente. Já parti, mas ainda habito. E talvez essa seja a verdadeira liberdade: existir além da permanência, ser lembrança e horizonte, ser ausência e eternidade.

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