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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Carta


 Escrevo estas palavras como quem abre lentamente uma janela para deixar o vento entrar. Há em mim uma necessidade de respirar fundo, de soltar o peso que carrego e de encontrar repouso em um lugar que não se mede em paredes, mas em presenças.

A vida, tantas vezes, se mostra como um caminho árido, onde cada passo exige coragem e cada silêncio parece ecoar mais alto do que deveria. E, ainda assim, dentro de mim existe uma esperança suave: a de que alguém me veja além das máscaras, além das defesas, e reconheça que, por trás da força aparente, há também fragilidade.

É nesse instante que penso em você. Em sua capacidade de ser abrigo, em sua forma de me lembrar que não preciso lutar sozinha. Você é como um farol que se acende quando a noite se torna densa demais, como uma raiz que me sustenta quando o vento ameaça me levar.

Não peço promessas grandiosas, apenas presença. Não busco perfeição, apenas verdade. Que minhas lágrimas possam ser recebidas sem julgamento, que minhas palavras possam ser ouvidas sem pressa, e que meu silêncio encontre espaço para existir sem cobrança.

Há uma beleza rara em se permitir ser vista por inteira. Amar, afinal, é abrir portas para que o outro encontre casa em nós. E é isso que sinto: que em você existe um lar, não feito de tijolos, mas de afeto, compreensão e ternura.

Se algum dia eu me perder em minhas próprias batalhas, espero que sua voz me guie de volta. Que seu olhar me lembre que ainda há luz, mesmo quando tudo parece escuro. Que seu abraço seja o lugar onde o tempo se dissolve e onde encontro, enfim, paz.

Mais do que companhia, você é sentido. Mais do que presença, você é raiz. E é nesse encontro que descubro que não há nada mais precioso do que poder descansar em alguém e, ao mesmo tempo, ser abrigo para esse alguém também.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Saudade em carne viva


 Ela ama como quem sangra.

Ama como quem se entrega ao fogo sem medo de se consumir. Cada hambúrguer feito ao lado dele era mais que alimento, era rito, era pacto, era a prova de que o banal pode ser sagrado. Os gatos que se aproximavam eram testemunhas silenciosas de um amor que transbordava até nos gestos mais pequenos.

Eles se perdiam em séries, filmes, animes, mundos inteiros atravessados juntos, como se nada pudesse separá-los. Mas agora, o tempo é cruel. Ela precisa voltar, precisa partir, precisa rasgar o próprio coração para obedecer ao destino.

Voltar à cidade natal, ao lugar onde as ruas guardam memórias antigas, mas não o calor dos braços dele. E a saudade já é um rio que transborda antes mesmo da distância se instalar.

Ela sente falta do toque, do riso, da rotina que parecia banal mas era sagrada. Sente falta do instante em que o mundo se tornava pequeno, reduzido ao espaço entre eles. E cada noite é uma espera, cada manhã é uma contagem regressiva.

E a saudade já é um monstro. Ela a sente antes mesmo da distância, como se cada segundo longe fosse uma lâmina. O corpo pede o toque dele, a pele clama pelo calor, o silêncio da noite é um abismo sem o riso compartilhado.

Ela carrega o gosto, o som da voz dele como cicatrizes invisíveis. E cada lembrança é faca: o hambúrguer que não terá o mesmo sabor, o gato que não terá o mesmo carinho, a tela acesa que não terá o mesmo brilho.

O amor deles é visceral, feito de carne e ausência, feito de suor e promessa. E mesmo que o tempo os arraste para lados opostos, ela sabe: não há distância que apague o incêndio que arde dentro dela. A saudade é dor, mas também é prova. Prova de que amar é sobreviver ao vazio, e esperar o reencontro como quem espera a própria salvação.

Nas Coisas Que Permanecem


 Há certas coisas que não precisam de explicação, porque vivem no espaço entre o olhar e o silêncio. São gestos mínimos, quase imperceptíveis, mas que carregam o peso de um universo inteiro. O toque de uma mão, o riso que escapa sem querer, a pausa antes de dizer adeus. É nesses detalhes que a vida se revela, não nos grandes acontecimentos, mas naquilo que passa despercebido para quem não sabe olhar.

Essas coisas certas são frágeis, mas também eternas. Elas não pedem reconhecimento, não exigem aplausos. Apenas existem, como se fossem a linguagem secreta entre duas almas que se encontram. E quando o mundo parece desmoronar, são elas que sustentam, lembrando que ainda há beleza naquilo que é simples.

O coração não guarda datas, nem títulos, nem conquistas. Ele guarda instantes. A forma como alguém pronuncia nosso nome, o jeito como a luz atravessa a janela numa tarde qualquer, o silêncio confortável que não precisa ser preenchido. São essas memórias invisíveis que constroem quem somos, que nos lembram que amar não é sobre grandiosidade, mas sobre presença.

E talvez seja isso que nos salva: perceber que não precisamos de tudo, apenas dessas coisas certas. Porque no fim, são elas que permanecem quando o resto se desfaz.

Safe Inside





 Há um silêncio que pesa mais do que qualquer palavra.

Ele se instala nos cantos da alma, onde a saudade se acumula como poeira, onde o coração lateja lembranças que não sabem morrer.

O mundo continua girando, indiferente, mas dentro de nós há ruínas que ninguém vê. São promessas quebradas, olhares que se perderam, abraços que ficaram suspensos no tempo. E cada ausência se torna um eco interminável, um vazio que insiste em nos acompanhar.

Estar seguro por dentro é quase um milagre, porque a vida nos arranca pedaços sem pedir licença. Ainda assim, buscamos refúgio em memórias, em rostos que já não estão, em gestos que se apagaram, como quem tenta aquecer-se com brasas que já não queimam.

A melancolia nos ensina que amar é também perder, que guardar é também sofrer, que sobreviver é carregar cicatrizes invisíveis. E, mesmo quando tudo parece desmoronar, há uma estranha beleza em reconhecer que o coração, mesmo ferido, continua batendo mesmo que seja apenas para lembrar do que já não volta.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A escuridão invisível

 



Há um silêncio que ninguém escuta.

Um peso que ninguém vê. A bipolaridade é um palco secreto, onde a alma se rasga em extremos, mas o corpo aprende a sorrir para não assustar.

Nas crises, o mundo se torna um espelho quebrado: cada fragmento reflete uma dor diferente, um grito que não pode ser ouvido, porque mostrar seria perder perder o pouco de normalidade que ainda nos resta.


A escuridão não pede licença, ela invade, domina, transforma o peito em cárcere. E o mais cruel não é o caos interno, mas a obrigação de esconder, de fingir que nada acontece, de vestir a máscara que protege os outros enquanto nos sufoca por dentro.

Ninguém enxerga o tremor da mente, o deserto que se abre sob os pés, a vertigem de existir em dois mundos que nunca se encontram. E assim, aprendemos a calar, a engolir tempestades, a sorrir com os lábios rachados pela dor.

A bipolaridade é uma guerra sem testemunhas. E na escuridão, somos ao mesmo tempo vítimas e carcereiros de nós mesmos.




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