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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Manual de Sobrevivência em 50 Miligramas

 



Falam sobre a depressão como um quarto escuro e sobre os remédios como interruptores. Mas não é assim. Nunca foi. A sertralina não acendeu luz nenhuma em mim. Ela apenas me ensinou a suportar a penumbra sem me desfazer dentro dela.

Existe um luto silencioso em quem começa a tomar antidepressivos. Um luto pela pessoa que acreditava que conseguiria vencer sozinha. Um luto pela versão de si mesma que confundia sofrimento com identidade. Porque, depois de tanto tempo habitando a própria dor, você não sabe mais onde ela termina e onde você começa.

A sertralina não me devolveu a felicidade. Ela me devolveu o intervalo entre as tragédias. De repente, eu já não chorava por horas. Já não sentia o mundo desabar por causa de uma mensagem não respondida, de um silêncio, de uma lembrança qualquer. E isso deveria ter sido libertador. Mas foi assustador.

Porque quando a dor abaixa o volume, você finalmente escuta tudo aquilo que ela estava encobrindo.

Os vazios.

As ausências.

Os sonhos abandonados.

As pessoas que partiram.

As versões de você que morreram pelo caminho.

A sertralina não cura essas coisas. Ela apenas impede que você sangre enquanto olha para elas.

Há dias em que sinto falta da intensidade. Não da tristeza, mas da intensidade. Como se a vida, antes, fosse uma tempestade permanente, e agora fosse apenas chuva. E eu me pergunto se era mais viva naquela destruição. Então percebo que não. Eu não estava vivendo. Eu estava sobrevivendo.

Sobreviver é diferente.

Sobreviver é passar meses acreditando que cada manhã será igual à última. É carregar o próprio corpo como quem arrasta destroços. É sorrir para as pessoas enquanto uma parte de você implora para desaparecer por algumas horas do mundo.

E então chega um comprimido pequeno demais para o tamanho do seu sofrimento.

Pequeno demais para a quantidade de noites que você perdeu.

Pequeno demais para os traumas que ninguém viu.

Pequeno demais para explicar por que continuar respirando às vezes parecia um trabalho de tempo integral.

Mas, ainda assim, ele ajuda.

Não como um milagre.

Como uma muleta.

Como uma mão anônima segurando a sua no escuro e dizendo: "Só mais um pouco."

Algumas pessoas imaginam que a cura chega como um nascer do sol. Mas, às vezes, ela chega em uma cartela prateada, esquecida na gaveta, ao lado de copos d'água pela metade e noites mal dormidas.

Às vezes, a cura não parece heroica.

Às vezes, ela parece apenas alguém que decidiu ficar.

Mais um dia.

E depois outro.

E outro.

Até que, sem perceber, a vida deixa de ser uma batalha que precisa ser vencida e volta a ser apenas aquilo que sempre deveria ter sido:

Um lugar onde vale a pena permanecer.

Infelizmente esse dia ainda chegou. 

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