Há feridas que nunca aparecem na pele.
Ninguém as vê. Não deixam marcas roxas, não exigem curativos, não assustam quem passa. Ainda assim, doem com uma precisão quase cruel. São cortes invisíveis, feitos pelas ausências, pelas palavras que chegaram tarde demais, pelos silêncios que permaneceram quando tudo o que precisávamos era de uma voz.
Existe um tipo de sangramento que acontece por dentro. Lento. Contínuo. Silencioso.
É quando uma lembrança encosta onde ainda não cicatrizou. Quando uma saudade atravessa o peito sem pedir licença. Quando você sorri numa fotografia e percebe que já não é a mesma pessoa que estava ali. Não há sangue escorrendo pelas mãos, mas algo escorre. Algo se perde. Algo parte.
As pessoas costumam acreditar que a dor precisa ser vista para ser real. Mas algumas das maiores hemorragias da vida acontecem atrás dos olhos. Nascem na alma e descem pelas madrugadas, roubando o sono, a paz e pequenos pedaços de quem éramos.
Sangrar sem sangue é continuar vivendo enquanto algo dentro de você se despede. É carregar uma ausência como quem carrega um órgão vital. É aprender a respirar mesmo quando o peito parece ocupado demais para isso.
E talvez seja esse o lado mais triste de certas dores: elas não matam. Apenas transformam.
Você continua aqui. Continua andando, trabalhando, respondendo mensagens, fazendo planos. Mas existe uma parte de você que ficou para trás, perdida em algum lugar entre o que aconteceu e o que deveria ter acontecido.
Ninguém percebe.
Porque algumas pessoas choram pelos olhos. Outras choram pela maneira como se calam.
E há aqueles que sangram sem sangue, todos os dias, em segredo, até que a própria dor se torne parte da sua anatomia.

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