A lagosta vive dentro de uma armadura que a protege, mas também a aprisiona.
Seu exoesqueleto é firme, rígido, e por um tempo lhe serve bem. Mas chega o instante em que essa casca já não comporta o que ela é. O espaço se torna estreito, sufocante, e a única saída é a coragem de abandonar aquilo que antes parecia indispensável.
Então, ela se recolhe. Procura um abrigo silencioso e inicia o ritual da muda. Rompe sua velha carapaça e emerge nua, mole, exposta. Por alguns instantes, é apenas fragilidade diante do mundo. Qualquer predador poderia vencê-la. Mas é nesse intervalo de vulnerabilidade que o milagre acontece: ela absorve água, expande-se, cresce além dos limites antigos. Logo, uma nova armadura se forma, maior, mais forte, mais fiel ao tamanho de sua essência.
Nós também carregamos exoesqueletos invisíveis. São certezas que já não nos servem, medos que nos sufocam, papéis que nos aprisionam. Muitas vezes, insistimos em permanecer dentro dessas cascas, mesmo quando elas já se tornaram estreitas demais para o que somos. Mas a vida nos chama à mesma coragem da lagosta: abandonar o que nos limita, mesmo que isso nos deixe frágeis por um tempo.
Despirmo-nos das cascas antigas é doloroso. Ficamos inseguros, sem a proteção das velhas armaduras. Mas é nesse espaço de nudez que a expansão acontece. É ali que descobrimos novas forças, novas formas, novas peles.
A lagosta nos ensina que crescer exige risco. Que a vulnerabilidade não é fraqueza, mas passagem. Que só quem se permite despir-se do que já não cabe pode encontrar a liberdade de ser maior do que antes.
E talvez seja essa a nossa tarefa: reconhecer quando a casca já não nos serve, ter a coragem de deixá-la para trás e confiar que, mesmo frágeis, estamos apenas preparando o terreno para uma nova versão de nós mesmos.

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