No dia em que ela desistiu ela havia acordado, tomado café da manhã e adicionado granola a seu iogurte, havia colocado tudo em uma tigela e misturado, fez um pão com manteiga na chapa, e deixou tostar, para ficar naquele ponto que ela tanto gostava. Depois ela lavou a louça e deixou a cozinha toda limpa.
Na manhã em que desistiu, havia passeado com sua cadela, havia soltado a coleira dela e deixado que que corresse livremente, mas sempre de olho para que não invadisse quintais alheios. E observava seu rabinho feliz balançando e o quanto estranhos a elogiavam e diziam " Que cachorro lindo" e ela, cansada de corrigir os outros que era uma cadela, só dizia, de fato ela é bem bonita mesmo!
Na manhã em que ela desistiu, o dia estava lindo, o sol brilhava, mas não a ponto de queimar, sabe quando o clima está perfeito para um passeio, com uma temperatura amena? Que você consegue escutar os pássaros gorjeando e ao mesmo tempo é tão bucólico, que você consegue se imaginar sorrindo e curtindo a brisa suave que bate em seu rosto?
Na manhã em que ela desistiu, o dia estava lindo, como um campo de girassóis em que você pode correr. Aquele dia que você pode eternizar em uma fotografia. Se ela pudesse ter escolhido uma foto para eternizar aquele momento, seria essa: Cabelos soltos, vestido, tênis ,girassóis e um sorriso torto. Você sabia que ela detestava o sorriso dela ?
Na manhã em que ela desistiu eu queria ter dito para que ela não tivesse vergonha de mostrar seu sorriso para o mundo, queria ter dito que tudo bem sentir que não encaixava em nenhum lugar, que ela não precisava da validação de ninguém. Queria ter dito que sua vida era valiosa, mesmo quando ela sentia que ninguém se importava o suficiente.
Na manhã em que ela desistiu, ela leu mensagens antigas tão repletas de promessas, promessas que nunca mais vão ser cumpridas, promessas de não abandonos, e ela, que sempre havia dito que esse era o maior medo, viu passar diante de seus olhos toda uma vida não vivida e ela chorou como um animal ferido, como quando o enxotam e ele só deseja um afago.
Na manhã em que ela desistiu, não havia ninguém. Só ela e sua mente. E ela sempre disse que no fim das contas, era isso que sua mente ia fazer com ela. A mesma mente que a levantava, também derrubou. As vozes em sua cabeça foram mais fortes, muito mais fortes do que a força que ela parecia ter.
Na manhã em que ela desistiu, eu queria a ter colocado no colo, eu queria ter embalado seu sono e dito " descanse, não pense tanto" eu queria ter velado seu sono para que ela não se assustasse tão frequentemente entre um cochilo e outro. Eu queria ter dito : Pode dormir tranquila, tudo vai estar bem quando você acordar.
Na manhã em que ela desistiu, estava deitada olhando o teto que queria ter pintado com sua cor preferida, quando acreditava na possibilidade de recomeçar num lugar só seu. estava deitada, sentindo-se vazia embora suas lágrimas pudessem transbordar aquele cômodo. Mesmo quando sua mente teimava em lembrar da frase da Alice que ela gostava tanto : "Não chore...ninguém nunca resolveu nada com lágrimas".
Na manhã em que ela desistiu não havia restado nada para ela.
Não eram reticências.
Não havia um novo parágrafo.
Não era uma simples página virada.
Era o "The end"
Era um conto de falhas.
E tudo acabou.
Fim.
Restava agora alguns remédios. Lâminas. Uma garrafa de vinho E o vazio.
Acabou.
Na manhã em que ela desistiu, eu queria ter aberto uma janela de esperança em meio a seu desespero.
Desculpe-me por não ter conseguido. Ela tentou tanto e chegou tão longe...
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