Eu morri.
Dizem que, quando estamos perto do fim, voltamos ao começo. Que as memórias passam diante dos nossos olhos como um filme antigo, uma sucessão de cenas que julgávamos esquecidas, mas que, de alguma maneira, permaneceram guardadas em algum lugar da nossa existência. Dizem que vemos os rostos, ouvimos as vozes, revisitamos os lugares e, por alguns segundos, toda uma vida cabe dentro de um instante.
No meu caso, não houve nada.
Meu coração simplesmente parou de bater numa linda tarde de primavera.
Sempre achei que morreria em um dia chuvoso. Combinaria mais com a minha melancolia, com essa maneira quase inconveniente de enxergar tristeza até nos dias mais bonitos. Imaginei muitas vezes a chuva escorrendo pela janela, o céu acinzentado e o mundo seguindo sua rotina enquanto eu, finalmente, deixaria de fazer parte dele. Seria poético, talvez até cinematográfico.
Mas a verdade é que até o dia estava radiante com o meu fim. O sol escaldante brilhava no céu, indiferente à minha partida, como se a natureza não tivesse recebido a notícia de que uma existência havia acabado.
Eu morri.
Não havia música. Nenhuma trilha sonora, nenhum acorde de piano, nenhuma daquelas canções que costumamos associar às despedidas. Os sons que escutei foram de pessoas conversando nas proximidades, passos apressados, vozes que se misturavam e, depois, o silêncio.
Em uma mente sempre tão barulhenta quanto a minha, a ausência de som era gritante.
Foi como desligar um interruptor. De repente, não havia pensamentos, preocupações, lembranças ou perguntas sem respostas. Nenhuma conversa que eu gostaria de ter tido novamente, nenhuma frase que deveria ter dito, nenhuma preocupação com o amanhã. Apenas a escuridão.
E pensar que passei tanto tempo tentando encontrar um pouco de silêncio dentro de mim.
Eu morri.
Dia 04 de novembro. Era apenas mais um dia cheio de compromissos, como tantos outros na minha semana. Havia coisas para resolver, mensagens para responder, tarefas inacabadas e pequenos planos que aguardavam a minha atenção. Não houve um grande aviso, um alarde ou qualquer coisa que pudesse me preparar para o fim.
Foi tão inesperado que me custou acreditar que havia acontecido. O que é curioso, considerando que todos vocês sabem que, de alguma maneira, parecia óbvio que isso aconteceria.
A morte me encontrou em meio a um planejamento de viagens. Encontrou-me fazendo listas, calculando distâncias, procurando lugares desconhecidos e imaginando como seria acordar em uma cidade diferente. Eu estava ocupada pensando em para onde ir, sem imaginar que não chegaria a lugar algum.
Havia uma certa ironia nisso.
Passei boa parte da vida procurando maneiras de escapar. Mudei de planos, de caminhos, de ideias. Às vezes, tudo o que eu queria era desaparecer por alguns dias, desligar o telefone, deixar de ser necessária e experimentar a estranha liberdade de não precisar dar explicações a ninguém.
Talvez eu tenha confundido, em alguns momentos, a vontade de fugir com a vontade de deixar de existir.
A verdade é que eu até durei muito.
Desde pequena, tive alguns encontros mórbidos com a ideia da morte. Dançamos algumas valsas, trocamos alguns beijos e, em determinadas ocasiões, ela pareceu uma companhia familiar demais para alguém que ainda tinha tantos anos pela frente. Mas, dessa vez, não houve convite, negociação ou despedida. A morte não pediu licença, não pediu permissão. Apenas me encontrou e me abraçou.
Eu morri.
Não sei o que escreverão na minha lápide. Talvez escolham uma frase bonita, dessas que parecem explicar uma pessoa inteira em poucas palavras. Talvez alguém se lembre de uma das minhas citações favoritas e decida eternizá-la no mármore. Não sei se adornarão meu túmulo com girassóis, se haverá flores amarelas ou se alguém encomendará uma missa de sétimo dia.
Também não sei quantas pessoas aparecerão.
Sempre achei curioso como a morte transforma as pessoas em assunto. De repente, todos parecem ter uma história para contar, uma lembrança para compartilhar, uma fotografia esquecida na galeria do telefone. As pessoas se encontram para falar sobre alguém que já não pode participar da conversa.
Talvez contem sobre minhas manias, minhas contradições, minhas opiniões inconvenientes e meu jeito de transformar assuntos simples em longas reflexões. Talvez alguém se lembre de uma conversa banal que, para mim, significou muito. Talvez descubram que guardei pequenos gestos de carinho por muito mais tempo do que imaginavam.
Espero que não tentem me transformar em alguém melhor do que fui.
Fui feita de muitas coisas. Algumas bonitas, outras difíceis de explicar. Tive dias em que fui generosa, dias em que fui insuportável, dias em que não consegui oferecer nem a mim mesma a gentileza que oferecia aos outros. Fui contraditória, intensa, exagerada, silenciosa. Algumas vezes, fui tudo isso na mesma tarde.
Não gostaria de ser lembrada como uma pessoa perfeita. A perfeição sempre me pareceu uma forma bastante entediante de existir.
Eu morri.
E, curiosamente, não há mais nada para organizar.
Não preciso responder às mensagens que deixei acumuladas. Não preciso verificar se o trabalho está em ordem, se alguém precisa de alguma coisa ou se esqueci algum compromisso. Não preciso fazer planos para o próximo mês, economizar dinheiro para uma viagem ou pensar no que vestirei na semana seguinte.
Não preciso sorrir quando não tenho vontade.
Não preciso explicar meus silêncios, justificar meus afastamentos ou encontrar palavras bonitas para sentimentos que nem eu mesma consigo compreender.
Não preciso resolver todos os problemas do mundo.
É estranho pensar que a vida inteira pareceu uma sucessão de obrigações, e que, no fim, todas elas continuaram existindo sem mim. O mundo não parou. Os ônibus continuaram circulando, as pessoas continuaram reclamando do calor, alguém perdeu a hora, alguém se apaixonou, uma criança nasceu e uma árvore floresceu em alguma rua que nunca conheci.
A vida tem essa inconveniente capacidade de continuar.
Talvez seja essa a parte mais difícil de compreender: descobrir que somos protagonistas apenas da nossa própria história. Para o restante do mundo, somos personagens que aparecem, deixam algumas falas, atravessam determinadas cenas e, eventualmente, saem de quadro.
E tudo continua.
Eu morri.
Se pudesse deixar alguma coisa, não seriam grandes conselhos. Nunca tive muita habilidade para ensinar a alguém como viver. Mal consegui descobrir como fazer isso comigo mesma.
Talvez deixasse alguns livros com as páginas dobradas, fotografias de lugares que visitei, outras tantas de lugares que gostaria de conhecer. Deixaria minhas anotações, minhas listas intermináveis e os textos que comecei tantas vezes sem conseguir encontrar um final.
Deixaria também as perguntas.
Sempre tive perguntas demais. Sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre a existência, sobre o que significa pertencer a algum lugar. Passei anos tentando compreender coisas que talvez não tivessem explicação. E, no meio de tantas perguntas, esqueci algumas vezes de simplesmente experimentar as respostas que a vida me oferecia.
Gostaria que alguém encontrasse meus escritos e entendesse que, por trás de cada palavra, existia uma pessoa tentando organizar o próprio caos. Uma pessoa que gostava de observar, que se encantava com detalhes, que colecionava referências, que encontrava beleza em coisas que passavam despercebidas.
Uma pessoa que queria conhecer o mundo.
Que queria ver outras cidades, entrar em museus, caminhar por ruas desconhecidas, descobrir histórias escondidas em construções antigas. Que gostava de livros, de música, de conversas longas e de imaginar possibilidades.
Uma pessoa que, apesar de tudo, ainda tinha curiosidade.
Eu morri.
E agora não há mais primavera para mim, nem inverno, nem manhãs preguiçosas ou noites insones. Não há mais aniversários, reencontros, projetos ou promessas. Não há o desconforto de envelhecer, tampouco a expectativa de descobrir quem eu seria daqui a dez anos.
Existe apenas essa estranha interrupção.
Talvez vocês esperassem um grande desfecho. Uma revelação, uma explicação definitiva, uma frase capaz de justificar tudo o que veio antes. Mas não tenho. A vida raramente oferece conclusões satisfatórias, e não vejo por que a morte deveria ser diferente.
Sei apenas que existi.
E existir, por mais contraditório que tenha sido, significou alguma coisa. Pelo menos para mim.
Fui muitas versões de uma mesma pessoa. Algumas ficaram pelo caminho, outras sobreviveram a períodos que pareciam impossíveis de atravessar. Houve momentos em que precisei reaprender a começar, reconstruir pequenas certezas e encontrar motivos para continuar escrevendo, trabalhando, viajando, respirando.
Talvez ninguém tenha percebido quantas vezes precisei recomeçar.
Talvez nem eu tenha percebido.
Mas agora estou aqui, contando o fim de uma história que, até ontem, ainda estava sendo escrita.
Eu morri.
E esta é minha última carta. Meu último registro. Não sei se alguém a encontrará, se alguém compreenderá suas entrelinhas ou se minhas palavras acabarão esquecidas entre tantos outros arquivos perdidos pelo tempo.
Não sei se haverá saudade. Não sei se haverá silêncio quando pronunciarem meu nome. Não sei se alguém olhará para o céu e se lembrará de mim.
Só espero que, quando falarem sobre a minha existência, não se lembrem apenas do meu fim.
Porque antes de morrer, eu vivi.
E, entre tantas coisas que fui, também fui alguém que desejou intensamente conhecer o mundo, que encontrou abrigo nas palavras e que, mesmo quando não sabia muito bem o que fazer da própria existência, continuou procurando alguma coisa bonita para observar.
Talvez seja isso que reste de nós.
Não os dias exatos, não os compromissos cumpridos, não as listas de tarefas ou os problemas que pareciam tão urgentes. Mas os pequenos fragmentos de humanidade que deixamos pelo caminho. Uma conversa, um abraço, uma fotografia, uma frase esquecida na memória de alguém.
O sol ainda brilha lá fora.
E eu morri.


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