Eu estou planejando meu aniversário. Estou escolhendo o bolo, pensando na comida, calculando quantas pessoas vão caber, escolhendo a música, imaginando quem vai chegar primeiro e quem provavelmente vai atrasar. Estou pensando no vestido, fazendo listas, organizando detalhes, respondendo mensagens, dando risada, publicando coisas e dizendo que estou animada.
E talvez ninguém imagine que, em algum lugar dentro de mim, existe também outro planejamento. Um que ninguém vê. Porque enquanto eu penso no dia 8, também existe uma parte de mim perguntando se eu realmente vou chegar até lá.
Essa é uma das coisas mais cruéis sobre a dor que não aparece. Ela não necessariamente transforma a gente em alguém triste o tempo inteiro. Às vezes, ela deixa a gente funcionando perfeitamente. A gente trabalha, paga contas, responde “estou bem”, faz planos para dezembro, compra uma roupa nova, marca compromissos, comenta uma publicação, ri de uma piada, abraça alguém, compra o próprio bolo. E depois, quando ninguém está olhando, pensa: “Eu não sei se quero continuar”.
É possível estar rodeado de pessoas e se sentir completamente sozinho. É possível amar a própria família e, ainda assim, sentir uma vontade desesperada de desaparecer. É possível querer viver e, ao mesmo tempo, estar cansado demais para continuar tentando. É possível planejar o futuro enquanto uma parte de você acredita que não deveria existir nele.
E talvez seja justamente isso que torne tudo tão difícil de perceber. Nem sempre quem sofre está chorando. Às vezes, está fazendo piada. Às vezes, está trabalhando. Às vezes, está planejando uma festa. Às vezes, está dizendo “depois a gente conversa”. Às vezes, está escolhendo a música que vai tocar no próprio aniversário sem saber se terá forças para chegar até ele.
Por isso, neste Setembro Amarelo, eu não quero falar apenas sobre as pessoas que demonstram que estão mal. Quero falar sobre aquelas que aprenderam a esconder. Sobre quem sorri porque não quer preocupar ninguém. Sobre quem diz “está tudo bem” porque não sabe explicar que não está. Sobre quem continua vivendo não porque a dor acabou, mas porque ainda existe alguma coisa, por menor que seja, segurando essa pessoa aqui.
Pode ser um gato. Uma música. Um amigo. Uma história que ainda não terminou. Um livro que ainda não foi lido. Uma viagem que ainda não aconteceu. Uma festa. Um aniversário. Qualquer coisa.
Às vezes, a esperança não chega como uma grande revelação. Às vezes, ela é só uma pequena coisa que diz: “Aguenta mais um pouco”.
E talvez seja por isso que precisamos perguntar mais. Não apenas “você está bem?”, mas “como você está de verdade?”. Precisamos aprender a permanecer quando a resposta for diferente daquela que esperávamos. Algumas pessoas não precisam de alguém que resolva a vida delas. Precisam de alguém que fique. Que escute. Que não minimize. Que não diga “você tem tudo para ser feliz”. Que não transforme sofrimento em ingratidão. Que não tenha medo de ouvir.
Porque ninguém deveria precisar parecer destruído para merecer cuidado.
E se você está planejando o próximo mês enquanto, secretamente, não sabe se quer estar aqui para vivê-lo, eu espero que você fique. Não precisa resolver a vida inteira hoje. Fique até amanhã. Depois, fique mais um pouco. Conte para alguém. Peça ajuda. Deixe alguém carregar um pedaço desse peso com você.
Porque talvez o futuro que hoje parece impossível ainda tenha coisas que você sequer imagina. Talvez exista uma música que você ainda vai amar, um lugar onde ainda vai querer estar, uma pessoa que ainda vai conhecer, uma gargalhada que ainda não aconteceu, um aniversário que ainda não chegou.
E talvez, um dia, você olhe para tudo isso e perceba: eu quase não cheguei aqui. Mas cheguei.
E isso importa.
Neste Setembro Amarelo, talvez a gente precise parar de procurar apenas quem está chorando e aprender a enxergar também quem está sorrindo enquanto tenta sobreviver. Pergunte. Fique. Escute. Não espere uma prova de sofrimento para oferecer cuidado.
Porque, às vezes, salvar alguém começa simplesmente quando ela percebe que não precisa esconder a própria dor.

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