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sábado, 22 de agosto de 2026

Eu tenho uma velha amiga

 





Eu não consigo me lembrar exatamente quando nos conhecemos. Às vezes penso que ela sempre esteve aqui, sentada em algum canto, esperando o momento certo para se apresentar. Durante muito tempo eu não sabia seu nome. Achava que algumas pessoas simplesmente eram assim. Mais intensas. Mais impulsivas. Mais sensíveis. Mais animadas. Mais tristes. Achava que talvez eu tivesse nascido com uma quantidade exagerada de sentimentos e que precisasse apenas aprender a conviver com eles. Eu não sabia que havia uma explicação para algumas das coisas que aconteciam dentro de mim. Não sabia que existia um nome para aquela sensação de estar acelerada demais, nem para os períodos em que eu parecia ter sido desligada da tomada. Não sabia que aquela pessoa que passava noites acordada cheia de planos e aquela outra que mal conseguia levantar da cama eram, de alguma maneira, a mesma pessoa. Eu.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

E durante muito tempo eu gostei dela.

Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de admitir.

Porque quando ela chega trazendo euforia, eu não quero que ela vá embora. Ela chega fazendo tudo parecer possível. As ideias aparecem em uma velocidade que eu mal consigo acompanhar, os planos se multiplicam, as palavras saem da minha boca antes mesmo que eu consiga organizá-las na cabeça e existe uma sensação quase inexplicável de que finalmente alguma coisa dentro de mim está funcionando como deveria. Eu quero fazer tudo. Quero começar projetos, resolver problemas, conhecer lugares, conversar com pessoas, organizar minha vida inteira, mudar coisas, comprar coisas, criar coisas. Tenho uma certeza absurda de que dessa vez vai ser diferente, de que finalmente descobri quem eu sou e do que sou capaz. Eu durmo pouco e não sinto falta do sono. Às vezes acho até que dormir é uma perda de tempo, porque existem tantas coisas para fazer, tantos pensamentos para colocar em prática, tantos planos esperando por mim. E minha velha amiga fica ali, sorrindo, alimentando cada uma dessas certezas. Ela diz que eu consigo. Diz que eu sou capaz. Diz que eu não preciso parar. E eu acredito.

Talvez porque, naquele momento, tudo dentro de mim pareça verdade.

Eu não sei explicar para alguém que nunca viveu isso como é sentir a própria mente correndo na frente do corpo. É como tentar acompanhar uma pessoa que conhece o caminho enquanto você ainda está tentando entender onde está. Os pensamentos chegam todos juntos. Uma ideia puxa outra, que puxa outra, que lembra uma coisa que eu precisava fazer, que me faz lembrar de uma pessoa para quem eu precisava mandar mensagem, que me faz pensar em um projeto que poderia começar, que me faz imaginar como seria se eu mudasse completamente alguma coisa na minha vida. E, quando percebo, estou no meio de uma tempestade de pensamentos que não parece exatamente ruim. Pelo contrário. Às vezes parece maravilhosa. É como se meu cérebro tivesse aberto todas as janelas ao mesmo tempo e deixado entrar uma quantidade absurda de ar.

O problema é que eu nunca sei quando o vento vai mudar.

Porque muda.

Sempre muda.

E é aí que eu percebo que minha velha amiga não veio apenas para me ensinar a correr. Ela também sabe me ensinar a parar.

Só que ela não sabe parar devagar.

Ela simplesmente apaga as luzes.

Um dia eu estou cheia de planos e, algum tempo depois, estou olhando para eles sem entender como consegui acreditar que daria conta de tudo. As coisas que pareciam urgentes deixam de fazer sentido. As mensagens ficam difíceis de responder. Os compromissos começam a parecer montanhas. Tomar banho pode exigir uma negociação comigo mesma. Levantar da cama deixa de ser uma coisa automática e passa a ser uma decisão. E existe uma culpa enorme porque eu me lembro de quem eu era alguns dias antes. Eu me lembro da energia, da disposição, das promessas que fiz, das coisas que comecei, das pessoas para quem disse que faria alguma coisa. E então me pergunto por que agora não consigo nem terminar aquilo que comecei.

É como se eu tivesse sido duas pessoas e nenhuma delas soubesse conversar direito com a outra.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

Ela me ensinou que a minha própria memória pode ser cruel. Porque quando estou mal, eu me lembro de tudo o que fiz quando estava acelerada. E quando estou acelerada, eu não consigo imaginar que algum dia vou ficar daquela maneira novamente. Em um momento eu penso que nunca mais vou precisar de ajuda, porque estou ótima. No outro, penso que nunca mais vou ficar bem, porque estou péssima. E talvez uma das coisas mais cansativas seja justamente tentar descobrir qual dessas certezas merece ser ouvida.

Porque as duas parecem verdade quando chegam.

Eu já tive momentos em que me senti invencível. E também já tive momentos em que me senti completamente quebrada. Já olhei para mim mesma e pensei que finalmente estava conseguindo. E já olhei para a mesma pessoa no espelho sem conseguir reconhecer quem estava ali. Já fui extremamente produtiva e já passei dias tentando encontrar forças para realizar tarefas que, para qualquer outra pessoa, pareciam absolutamente simples. Já falei demais, pensei demais, planejei demais, senti demais. E também já fiquei em silêncio porque não havia absolutamente nada dentro de mim que eu conseguisse transformar em palavra.

E talvez seja isso que mais confunda as pessoas.

Porque de fora, às vezes, eu pareço apenas uma pessoa indecisa.

Às vezes pareço preguiçosa.

Às vezes pareço irresponsável.

Às vezes pareço exagerada.

Às vezes pareço feliz demais.

Às vezes pareço triste demais.

E quase ninguém vê o esforço que existe entre uma versão e outra.

Ninguém vê a quantidade de vezes que eu preciso me observar para tentar perceber se estou mudando. Ninguém vê que, para mim, algumas coisas precisam ser medidas. O sono. A impulsividade. A velocidade dos pensamentos. A vontade de fazer mil coisas ao mesmo tempo. A vontade de não fazer absolutamente nada. Ninguém vê que às vezes eu preciso parar e me perguntar se aquilo que estou sentindo é realmente uma decisão ou apenas uma fase falando mais alto dentro de mim.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

E ela já me fez duvidar de mim mesma muitas vezes.

Já me fez acreditar que eu era extraordinária e, depois, que eu era um fracasso. Já me fez fazer promessas que eu não conseguiria cumprir. Já me fez começar coisas que não terminei. Já me fez falar coisas que depois precisei explicar. Já me fez tomar decisões no calor de sentimentos que pareciam permanentes, mas que não eram. Já me fez sentir vergonha de mim mesma. E, talvez pior do que tudo isso, já me fez acreditar que eu precisava pedir desculpas por existir de uma maneira que nem sempre consigo controlar.

Mas existe uma coisa que eu precisei aprender depois de muito tempo: eu não sou todas as coisas que faço quando estou em um episódio. Eu não sou a minha impulsividade. Eu não sou a minha apatia. Eu não sou a minha euforia. Eu não sou o meu desânimo. Eu não sou cada pensamento que atravessa a minha cabeça. Eu sou a pessoa que precisa aprender a viver com tudo isso.

E isso é muito diferente.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

Ela ainda aparece.

Às vezes chega fazendo barulho. Às vezes chega tão silenciosamente que só percebo quando já estou muito longe de mim mesma. Às vezes eu reconheço seus passos. Outras vezes sou pega completamente desprevenida. E eu ainda não sei lidar com ela todos os dias da mesma maneira. Existem dias em que consigo perceber que alguma coisa está mudando e procuro ajuda antes que a mudança fique grande demais. Existem outros em que eu só percebo depois. E eu precisei aprender que isso não significa fracasso.

Porque viver com uma mente que muda de ritmo não é simplesmente “ter altos e baixos”.

É aprender a reconhecer os próprios sinais.

É tentar entender quando a empolgação está deixando de ser apenas felicidade e começando a virar alguma coisa que precisa de atenção. É perceber quando o cansaço deixou de ser apenas cansaço. É entender que nem toda vontade precisa virar ação e que nem todo pensamento precisa ser obedecido. É aceitar que às vezes eu preciso diminuir o ritmo, mesmo quando tenho certeza de que consigo continuar. E também entender que, quando tudo parece pesado demais, talvez eu não esteja sendo fraca. Talvez eu esteja apenas atravessando uma fase que precisa de cuidado.

Eu demorei para entender isso.

Demorei para parar de me culpar.

Demorei para perceber que pedir ajuda não significa que eu perdi.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

E eu não vou fingir que gosto dela.

Não gosto.

Não acho bonito o caos que ela provoca. Não acho poético perder noites de sono, fazer escolhas impulsivas, sentir a cabeça acelerada até o corpo não conseguir acompanhar, nem passar dias olhando para o teto tentando descobrir de onde tirar forças para levantar. Não quero transformar isso em uma história bonita porque nem tudo precisa ser bonito para ter significado.

Há coisas que simplesmente doem.

Há dias em que eu sinto falta de uma versão mais previsível de mim mesma. Há dias em que gostaria de saber exatamente como vou acordar amanhã. Há dias em que queria poder confiar que meu humor permanecerá no mesmo lugar por tempo suficiente para que eu consiga fazer planos sem medo de não conseguir cumpri-los.

Mas existem também os dias tranquilos.

E hoje eu aprendi a valorizá-los.

Os dias em que acordo e minha cabeça está silenciosa. Os dias em que consigo dormir e não sinto que estou perdendo tempo. Os dias em que tenho vontade de fazer alguma coisa, mas não sinto necessidade de fazer tudo. Os dias em que consigo ficar triste sem acreditar que a tristeza será eterna. Os dias em que consigo estar feliz sem sentir que preciso transformar aquela felicidade em uma avalanche de decisões.

Nesses dias, eu consigo respirar.

E talvez seja nesses dias que eu mais consiga perceber quem eu sou.

Não a pessoa eufórica.

Não a pessoa deprimida.

Não a pessoa impulsiva.

Não a pessoa apática.

Eu.

A pessoa que existe no intervalo.

A pessoa que continua tentando se conhecer.

A pessoa que erra, aprende, pede desculpas, recomeça, descansa, trabalha, ama, ri, chora, cria, destrói algumas coisas e reconstrói outras.

Eu tenho uma velha amiga. O nome dela é bipolaridade.

Ela provavelmente vai continuar fazendo parte da minha história.

Mas hoje eu sei que uma história pode ter uma personagem sem que essa personagem seja a protagonista.

Ela pode aparecer.

Pode falar alto.

Pode tentar assumir o controle.

Mas a vida ainda é minha.

E talvez sobreviver não seja encontrar uma maneira de silenciá-la para sempre.

Talvez seja aprender a reconhecer sua voz sem confundi-la com a minha.

Porque, no fim das contas, eu tenho uma velha amiga.

O nome dela é bipolaridade.

Mas eu ainda estou aprendendo a descobrir o meu próprio nome longe dela.

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